Colunistas - Júlia Guimarães

De vez em quando, no meio de uma existência banal

Ah... the perfect bliss... sabem como é?
Meses e meses e meses de dias perfeitos, pintados de azul e branco entre ora suaves ora fortes tons de rosa e seus derivados... sempre em tons pastel.

E era reclinarmo-nos nas nossas fofas nuvens predilectas a cheirar a lavadinhas, era predispor em camadas pequenas e delicadas almofadas de algodão puro sob a nossa cabecinha despreocupada e era fechar os olhos e sentir um calorzinho danado de bom a invadir-nos a alma, nas pálpebras recolhidas uma leve luz dourada do Verão de todo um ano e nas narinas um aroma agradável (porque ligeiro) a rosas, magnólias, madressilvas e a frescas flores campestres.

Em stéreo e mega-bass nos nossos headphones, no volume adequado à maturidade de cada um, passava a Original Soundtrack das nossas vidas. Na mão direita, um sumo de laranja natural, fresquinho, que sorvíamos a nosso bel-prazer pela palhinha verde e rosa fluorescente que alguém, um dia, nos colocou no elegante copo.

Apalpando um 'cachinho à nossa volta, podíamos sentir o toque reconfortante do livro que andávamos a ler e que alguém, um dia, escreveu para nós. E sorríamos. Acenávamos do alto, atirávamos beijos... Endossavamos cheques... Queríamos vender, vendíamos... bastando para isso estalar os dedinhos anelados, interrompendo o seu tamborilar constante.

Se fizessemos o esforço supremo de semi-abrir um olho, descerrando as pestanas debruadas com rímel dourado e prateado da melhor marca, poderíamos ver bem ao nosso lado, um tipinho com uma enorme e faustosa pena de avestruz na mão a abanar-nos, paulatina e levemente, rosto impenetrável fixo no horizonte, e lá ao fundo, já na linha do horizonte belo, uma outra pessoa que zelosa se aproximava, tabuleirinho de bambu decorado com paninho de linho e provido de óleos essenciais para a besuntada massagem que se seguiria.

Ali o'... Bancadas de acepipes e mesas de frutas e néctares exóticos à espera do nosso real apetite... Não tínhamos de fazer pela vida, aparecia-nos tudo feito. Em maravilhosas obras acabadas com resultados que pensávamos serem de sonho mas que não o eram.
Um dia...
Um dia dormimos de mais, sentimos que nos retiravam os auriculares enquanto que uma vozinha irónica mas não antipática nos sussurra ao ouvido: “Senhoras e senhores, Bem-vindos à realidade!”
Um gongo força-nos a abrir os olhos.
DOING!!!!!!!!!
Os óculos de sol de lentes cor de rosa em formato de coração caem-nos no colo. Brrrrrrrrrrrrr... como custa.

Acordar do que não queríamos quando queríamos querer ainda muito mais, descer à força de um mundo que queríamos fosse sempre o nosso, de um mundo que era, afinal, nosso, para cair na nossa rudimentar dimensão humana. Como custa, porra!

Falo por mim. Não gosto desta realidade. Nada mesmo.
Mas sabia que tínhamos de voltar a sentir como vive a outra parte do mundo. A não-iluminada.
Tenho saudades dos salamaleques dos últimos dois anos em que me deram o melhor. Suspiro muito, porque sempre fui de caprichos e eles foram-me (quase todos) garantidos por Alguém que eu pensava gostava muito de mim... Afinal...

Já não estava habituada a carpir, a bulir, a fazer pela vidinha e esta a não ajudar em nada de nada. Não há nuvem, já. A almofada que me atazana os pesadelos é dura como um calhau e a música saloia que ouço em meu redor é pimba, muito pimba e chega até aqui com mais intensidade encavalitada nos ventos altamente inconstantes que sopram de Sul.

Não há quem nos refresque, não há quem nos massaje, não há quem nos apaparique. Não há papinha já pronta. Já nada cai do céu. E não podemos já dormir à sombra das Taças conquistadas.

Esta é a nossa realidade. É vê-la a desenrolar-se friamente diante dos nossos olhos desprevenidos. Temos crises existenciais e de resultados, promessas negadas e adiadas, subvalorizações, sobrevalorizações, treinadores de mochilinhas despedidos, chicotadas psicológicas, experiências mal-sucedidas, períodos de experimentação, falhanços retumbantes, os muito na moda “erros de casting” num filme que antes era o grande, o maior, (o único) favorito para Óscar, dispensas e desumanidades, empates e empatas, faltas de atitude e de humildade, mas também de organização aqui e ali.

Temos parvos, impacientes e mal-agradecidos. Estúpidos, que também aqui os há. Sobrancerias... azar. Falta de sorte. Realidade pura.

Há que aceitá-la. E juntos lutar para que esta realidade volte a ser o sonho que já foi a nossa realidade. Não atiremos já a toalha para o chão. Já fizemos isto. Já estivemos aqui, assim e chegamos às nuvens, lembram-se? Tivemos o nosso conto de fadas. Com dragões fabulosos, príncipes e heróis de lenda. E nem foi assim há tanto tempo como isso.

Só temos dois pontos conquistados, não temos equipa, mas eu vejo o nosso plantel, vejo o que temos entre mãos... e (processem-me!) acredito. Claro que estou triste, saudosa e melancólica (sou eu, lembram-se?), mas haveremos de ressurgir e voltar a ensombrar o País que Ri.

O que é o SeleBe neste momento? Fogo de vista. A mesma merdinha e imbecilidade de sempre. Os lagartos? Please... falemos de equipas de futebol, onde não há lugar a palhaços. Dar-lhes-emos 33,5 e pontos de avanço... No final do campeonato ficaremos à sua frente. Estamos ainda apenas a 2,3% das nossas verdadeiras capacidades. Ainda estamos longe de ter aquecido os motores. As voltas de aquecimento ainda agora começaram.

Está mal? Pois está, mas este é o Porto que temos e somos. Tenhamos paciência e não executemos já o pobre do treinador em praça pública. Mesmo que venhamos ainda a empatar mais um jogo, mesmo que venhamos a perder mais pontos. Que vamos perder. Muitos. Oh, porra, tantos! Mas vamos ganhar uma equipa.
Que a força esteja connosco :)
Porque ela está no meio de nós.