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Opinião no Portal dos Dragões
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Porquê...o futebol - 20-05-10 Num ano em que se realize um Mundial de Futebol, é a completa loucura a nível planetário e, seja qual for o ângulo por onde se olhe, há coisas que não se entendem. Como é óbvio, todos os que nos interessámos por este fenómeno, fingimos que percebemos perfeitamente da matéria, mas, na verdade, não é bem assim. Entender-se-ia, se a bola não fosse redonda, ou simplesmente se, como um dia disse o grande Salvador Dali, a bola fosse hexagonal. Mas a dita é redonda e rola, o que a torna rigorosamente imprevisível. Esta imprevisibilidade – não a habilidade, nem o esforço, nem o mérito – rege o futebol. E, como tudo o que não é previsível, significa que o futebol carece de leis; ou seja, significa que é absurdo; que não se pode entender. Também não deixa de ser verdade que há coisas do futebol que se entendem, mas não correspondem à sua essência, ficam-se pelos seus arredores. Todos os estudiosos argumentam que o futebol é um prolongamento da guerra, feita através de meios pacíficos, ou, se se prefere, que é o melhor e mais conhecido substituto da guerra. Os factos favorecem esta ideia, porque desde sempre o futebol esteve associado à guerra: diz a lenda – e é a primeira referência ao futebol de que há registo – que por volta do ano 1000, os britânicos celebraram a sua vitória sobre o invasor dinamarquês, cortando a cabeça ao seu chefe e usando-a como bola; diz também a historia que, em 1314, o rei Eduardo II, proibiu o futebol em Inglaterra, no que mais tarde seria imitado por Eduardo III, Ricardo II e Henrique IV, todos eles persuadidos de que o futebol era praticado a expensas do treino militar e, portanto, a mais guerra menos futebol, e a mais futebol menos guerra. Mas o futebol só adquire a sua actual fisionomia em meados do século XIX, e só na segunda metade do XX, se transforma no desporto mais popular da história da humanidade. Pascal Boniface (Director do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), afirma que, o que o futebol propõe é: “uma zona residual de confronto, permitindo a expressão controlada da animosidade, não afectando os âmbitos mais importantes de interacção entre os países”, o que ajuda a explicar, que, no último meio século de história, contrariamente ao que aconteceu no resto do milénio, pelo menos as grandes potências europeias, tenham prescindido da sua apetência em aumentar o número de viúvas e órfãos, pelo procedimento de substituir as batalhas de sangue, pelas disputas de uma bola entre rapazes em calções. Daí que os mais consequentes estejam de acordo em que a FIFA deveria ter sido galardoada, há muito tempo, com o Prémio Nobel da Paz. Há um outro caso, ainda mais misterioso do que o anterior, e, no qual, não se repara tanto. Se, por exemplo Messi fosse abandonado no meio de um deserto qualquer, em menos de cinco minutos estaria rodeado por um enxame de admiradores; no entanto, Messi pode passear-se pela 5ª Avenida sem que ninguém repare nele (a menos, claro está, que se cruze com algum cidadão não norte-americano, o que equivaleria por dizer que o seu anonimato acabaria naquele instante). A verdade é que o país que governa o mundo ignora o desporto que governa o mundo, passe a redundância. Não é que não o entenda: é que nem sequer o deseja entender. Do que eles gostam é do futebol americano, do basquetebol, e do beisbol. Mas nenhum desses desportos é comparável ao futebol. Tratando de explicar-lhes o alcance do fenómeno aos seus compatriotas, o escritor Paul Auster, afirma que se fosse possível somar o interesse que os norte-americanos têm pelos seus desportos favoritos (futebol americano + basquetebol + béisbol), e depois o resultado fosse multiplicado por dez ou vinte, teriam a noção exacta do tamanho descomunal do interesse que os europeus, e não só, têm pelo futebol. Mas é inútil: não lhes entra na cabeça. Não é que sejam mais incultos ou mais “tapados” do que nós, é uma questão de mentalidade, o “soccer”, definitivamente, não é com eles. Alguns dirão que essa é uma das causas do inflexível ânimo beligerante dos seus sucessivos governos e governantes, e que a ONU deveria propor a implantação do futebol nos States, como ponto de partida para a implantação da paz mundial; pode ser…. Seja como for, no fundo, a explicação dessa incapacidade talvez não seja tão enigmática. Para a mentalidade norte-americana – educada numa estrita meritocracia de pioneirismo protestante, e para a qual o triunfo é sempre fruto do esforço pessoal – resulta deprimente; acho que para a nossa é secretamente exaltante, porque transforma o futebol numa metáfora, exacta, da vida. “Futebol é futebol”, disse Johan Cruyff. Talvez a melhor definição que se deu, até ao momento, a este desporto. Para mim, a única coisa que se tem que entender para compreender o futebol, é que no futebol não há nada que entender. O futebol não é só imprevisível; também é ininteligível. É esse fundo cego, vertiginoso e desesperado, a essência do futebol; também – e nem era preciso dizê-lo – o é da vida. |