Opinião no Portal dos Dragões

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Tsah - Geneticamente Portista. Alguém que um dia percorreu 1300 km, num só dia, para ver (e não viu) um jogo do FC Porto, porque acabou na cama de um hospital, poli-traumatizado. Em coma profundo. Quando despertou era campeão nacional. Dezanove anos depois...


É ... futebol - 17-06-10

Se o futebol é a nova religião pagã, os seus estádios deveriam ser considerados como as novas catedrais contemporâneas. Tal como na arquitectura religiosa, os estádios atravessaram todas as épocas até se transformarem em deslumbrantes sinais de modernidade e reveladores da transcendência de um desporto que já o deixou de ser. Há muito tempo que o futebol galgou as suas próprias fronteiras arcando com todas as suas consequências. Deixou de ser um desporto inexplicável e misterioso que é jogado com os pés, gerador de paixões incontroláveis, e já não é o refúgio ocioso da classe operária, nem sequer a bandeira de uma qualquer pequena e ranhosa aldeola. O futebol é a representação de quase todas as coisas imagináveis, uma espécie de universo paralelo onde se desenvolvem todas as actividades possíveis.

É desporto, política, negócio, tecnologia, medicina, arte, violência, fraude, emoção, pensamento, beleza e fealdade. Extravasou os seus limites porque não houve nada, nem ninguém, suficientemente poderoso, que o pudesse conter logo à nascença. Este jogo, idealizado pelos privilegiados estudantes de Eton, foi abraçado como sendo seu, pelos operários que começavam a desfrutar das suas primeiras horas livres nas tardes dos sábados. A partir desse momento, o seu imparável crescimento elevou-o a uma posição que até os norte-americanos querem compreender melhor. O futebol transformou-se no símbolo do nosso tempo, para o bem e para o mal.

Apesar de os intelectuais terem tentado resistir [durante muito tempo] à evidencia da sua importância social, desdém inexplicável porque não se pode viver de costas voltadas para algo que é fundamental para as pessoas, a certeza da transcendência do futebol já não admite dúvidas. Uma vez que é um dos grandes símbolos da actualidade, requer da simbologia que seja identificado como religião universal. Os estádios fazem esse trabalho. Fizeram-no com modéstia nos primeiros anos do século XX, em recintos sem qualquer tipo de exigências que apenas pretendiam acolher as pequenas comunidades: uma cidade ou um bairro. E foi nestes lugares que se jogou até que o futebol deu notícias daquilo que seria a globalização. Até nisto foi pioneiro. Quando o futebol extravasou o bairro e as cidades, e depois os países, e os continentes, quando numa qualquer aldeia perdida, no fim do mundo, se pode ver uma criança com a camisola do FC PORTO ou do Manchester United, quando na selva amazónica uma antena parabólica capta as imagens de um jogo no Dragão, em Old Trafford ou no Camp Nou, então não há hipótese de esconder que o futebol é muito mais do que futebol.

O Campeonato do Mundo de 2006, realizado na Alemanha, teve o seu pontapé de saída em Munique, num estádio que impressiona logo na parte de fora, como só o conseguem fazer as construções destinadas a definir uma época. Com sua forma de colchão flutuante, o estádio é a consagração do interesse da arquitectura pelo desporto, em especial pelo futebol. No melhor dos casos, os estádios tinham sido recintos funcionais, com alguns toques que os distinguiam. O arco do estádio San Mamés, em Bilbao, pertence a essa categoria criativa. Existem outros, poucos e já velhos, que incorporam brilhantes toques arquitectónicos, mas o seu tempo já passou. Nesses estádios, adorados e venerados pelos adeptos, no há sitio para a comodidade, nem para a tecnologia, nem para a segurança. San Mamés representa o velho futebol, privado dos confortos actuais, que o tornaram um fenómeno arrasador.

O estádio de Munique, desenhado pelos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron - autores, entre outros projectos, da Tate Modern de Londres - personifica o triunfo de um novo modelo, onde a vanguarda artística é cúmplice do negócio. No mundo onde se move o futebol actual, não foi surpresa para ninguém que o estádio se visse privado do seu nome durante um mês. A Allianz, a companhia de seguros que adquiriu os direitos para registar o seu nome no estádio (naming rights) durante 30 anos, não pôde utilizá-lo durante 30 dias. Durante esse prazo, a FIFA dispôs, em exclusivo, desses direitos. É isto o futebol nos dias de hoje, um imenso cenário, fundamentalmente económico, que requer templos à sua medida e onde os arquitectos mais prestigiados competem numa corrida que nem sempre produz resultados satisfatórios.

P.S. Tive o privilégio de visitar o estádio de Munique (Allianz Arena) e de San Mamés e o contraste não poderia ser mais flagrante. Os bascos dizem que há jogos de futebol e depois há jogos no San Mamés.