Opinião no Portal dos Dragões

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Tsah - Geneticamente Portista. Alguém que um dia percorreu 1300 km, num só dia, para ver (e não viu) um jogo do FC Porto, porque acabou na cama de um hospital, poli-traumatizado. Em coma profundo. Quando despertou era campeão nacional. Dezanove anos depois...


Um pensamento platónico - 06-04-10

Existem duas escolas filosóficas muito diferentes que poderiam ter êxito nos balneários de alguns campos de futebol, cá da nossa “praça”, caso Platão e Aristóteles fossem, nos dias de hoje, treinadores de futebol.

Uma dessas correntes afirma que no princípio foi o verbo ou a ideia; a outra defende que antes do verbo, teve lugar a acção. Se o treinador fosse Aristóteles, sem dúvida que trataria de imbuir nos jogadores a convicção de que só o treino dá origem à inspiração, de modo que um bom futebolista seria incapaz de notar a diferença entre o pensamento e um remate de cabeça: ambos os impulsos partem de um mesmo ponto do cérebro e são simultâneos.

Esta educação pragmática fez com que os anglo-saxões elegessem o desporto como fonte da perfeição: do esforço físico, submetido a estritas regras, derivam todas as virtudes do espírito que depois aplicar-se-ão à política e à moral. O golpe de génio está, em que a dura disciplina se transforme num jogo e que este seja limpo.

Por outro lado, se o treinador fosse Platão, faria com que a equipa acreditasse que só a ideia move os músculos, do mesmo modo que o espírito, governa a história. Deste imaterialismo depende o destino. Como o meu gosto pelo futebol é idealista, imagino Platão, depois de uma derrota, transformar o balneário na sua famosa caverna obscura, com os jogadores sentados de costas para a luz, que vem do exterior, e que projecta na parede as suas próprias sombras, tal como se movessem no campo durante o jogo.

O mito da caverna é, na verdade, um vídeo. Na primeira lição Platão faria ver aos jogadores que, na realidade, eles não existem, e que essas figuras fantasmagóricas que se agitam na parede iluminada, só tomam corpo quando são possuídas por uma ideia de conjunto. Talvez as ideias, a priori, e que segundo Platão encarnam nos seres para dotá-los de identidade, não sejam diferentes do ácido desoxirribonucleico.

Existe o ADN de campeão e o FC Porto nasceu com esse ácido vitorioso. Pois caso contrário, o golpe de génio, é a agonia: pedir, à última da hora, o amparo da sorte. No fundo da caverna, Platão, demonstraria que cada jogador era uma ficção. Na hora de formar a equipa, invocaria um verbo em forma de língua de fogo, qual Dragão, que pousasse sobre todas as sombras para converte-las num só músculo, articulado, com a ideia do triunfo. Assim se cria uma equipa de jogadores irascíveis e invencíveis.