Entrevistas
Entrevista com Alberto Babo, Treinador do FC Porto

Terminou mais uma época, e o basquetebol do FC Porto está de parabéns. Os Dragões venceram mais uma Taça de Portugal e chegaram à final do Play-off, onde obrigaram o campeão anunciado, a Ovarense, a Professor Alberto sete jogos empolgantes. Mas não se pense que foi uma época sem problemas, bem pelo contrário. Houve altos e baixos, houve lesões e outras contrariedades, mas no final o balanço é positivo. Nada melhor do que convidarmos o Professor Babo para dizer de sua justiça sobre a temporada finda.

fcporto.ws: Caro Professor, queira apresentar-se aos nossos visitantes...
Alberto Babo, 59 anos de idade, nasci numa freguesia do distrito do Porto de nome Meinedo, sou cidadão da cidade do Porto desde o nascimento, sou portista e sócio. Fui jogador de basquetebol também no nosso clube quando tinha 13 anos de idade, na categoria de infantis, segui dentro do clube até aos juniores. Deixei o basquetebol para jogar futebol federado numa equipa de juniores de Campanhã/Porto, durante um ano. Voltei a jogar novamente basquetebol já com idade de sénior, tudo isto no velhinho Campo da Constituição, fábrica de campeões (de basquetebol, andebol 7 e 11, hóquei em patins, voleibol, hóquei em campo etc.), fiz parte da célebre equipa que venceu o Campeonato Nacional (no pavilhão do Infante de Sagres) em 1971/1972 - a equipa do Dale Dover - juntamente com o Fernando Gomes e Fernando Assunção, os dois principais directores do Basquetebol do FC Porto.

fcporto.ws: Como foi o seu percurso desde que iniciou a sua actividade no basquetebol?
Tenho um curriculum como haverá muito poucos em Portugal. Fui Campeão e vencedor da taça de Portugal como jogador. Como treinador-adjunto, ajudei a conquistar muitos títulos com aquele que para mim ainda é uma referência, o Professor Jorge Araújo.

Como responsável pelas camadas jovens ganhei muitos títulos, juniores, juvenis, esperanças. Como Treinador Profissional e ainda só tenho 9 anos desta vida - 2 campeonatos nacionais, 5 Taças de Portugal, 2 Taças da Liga, 3 Supertaças, 3 vezes vice-campeão, várias vezes treinador do ano, record de vitórias consecutivas num campeonato profissional - 27. Formei ou ajudei de formar verdadeiros campeões, uns que já deixaram de jogar outros estão ainda em actividade, outros com qualidade deixaram o basquetebol para se dedicarem às suas vidas particulares.

Treinei desde os minis A até aos Profissionais - passei por todos os escalões. Tive algum sucesso nas competições europeias, mesmo com orçamentos baixíssimos, perante as equipas do topo do basquetebol da Europa. Por isso é um orgulho saber de que tudo o que fiz e faço é com muita PAIXÃO, muito profissionalismo e também muito trabalho.

«O melhor jogador foi a EQUIPA»

fcporto.ws: Qual o melhor jogador do nosso plantel, na época que agora terminou?
Não querendo ser injusto para alguns jogadores, direi que o melhor jogador foi a EQUIPA. Houve de facto individualidades que ao longo do tempo contribuíram e muito para o alcance das vitórias. Foram eles o Paulo Cunha (capitão), o Rodrigo e o Nuno Marçal. Estes destacaram-se pela regularidade das suas prestações, eles eram o núcleo duro da equipa, mas o John Whorton foi também, ao longo da época, um jogador muito valioso.

fcporto.ws: Qual foi o melhor jogador que já treinou?
Houve vários, mas para mim, e para não ser injusto para com alguns, direi que o melhor é aquele que encara cada treino com uma intensidade, uma motivação, uma atitude e que se predispõe dentro do próprio treino ou do jogo a ser altamente competitivo, e que escolhe a via do colectivo em prol da sua própria individualidade. Eu tenho tido essa felicidade de encontrar esse tipo de jogadores. Falar em nomes não me é fácil, por isso guardo-os para mim, na minha memória.

fcporto.ws: Esta foi uma época complicada. Qual foi para si o momento da viragem?
Construímos uma equipa com o orçamento possível, construímos um grupo que nos garantiria, á partida, bastantes alegrias, mas como tudo na vida acontecem coisas imprevistas, lesões, doenças etc., difíceis de colmatar. De facto, e depois de se estabilizar o grupo, o crescimento apareceu novamente em todas as fases, física, técnico-táctica e psicológica, com a entrada de um jogador para a posição 1 (base) - TJ Sorrentine. Um elemento chave para a liderança de equipa, em termos de rigor táctico. Um jogador rápido e que "obrigou" a equipa a correr atrás dele, o ritmo aumentou (velocidade) e por via desse facto tudo seguiu. Como se diz em ciclismo, foram na roda.

fcporto.ws: O que se passou com Rashad Phillips?
Muito simples, sabíamos de pesquisas realizadas que este jogador era um bom base, rápido, decidido, baixo, grande lançador, mas não sabíamos que ele estava parado há 3/4 meses e que tinha engordado, tinha jogado em grandes ligas europeias. Mas o facto de estar com peso a mais condicionou-o a ser capaz de transmitir as "tais" coisas boas que a equipa necessitava. Ajudou-nos a ganhar um jogo em Belém, com um lançamento fabuloso em cima da hora, com a mão esquerda e de três pontos. Não poderíamos esperar que este jogador ganhasse a forma em pleno campeonato (o comboio ia em velocidade de TGV), e ele não aguentava muito tempo dentro do campo...

fcporto.ws: Porquê que o Augusto Sobrinho teve menos minutos do que na temporada anterior?
Saí do Porto ele era ainda muito jovem. Mas de facto, no ano passado, e depois de uma grave lesão, o Augusto começou a aparecer e a ser altamente falado. É um jogador com uma grande margem de progressão, tecnicamente é forte, mas necessita, e ele sabe-o, que o jogo passe por envolvimentos colectivos. Sabe também que só ganhando experiência, controlando a sua vontade de fazer e resolver o mais rapidamente cada acção, o ajudará a ser um jogador cada vez melhor.

Foi muitas vezes treinado, este ano, a jogar na posição 1 e não na 2 (onde se sente mais à vontade), na posição de líder, onde tem de pensar, analisar, fazer jogar a equipa e depois no fim de cada acção decidir. Melhorou, jogou em jogos muito importantes, ajudou. E acima de tudo, ele sabe que, para ter uma ascenção boa, só concentrando-se na tarefa que lhe é destinada em cada jogo, é que lhe dará uma maior visibilidade em termos desportivos.

fcporto.ws: Sentiu mais interesse e apoio dos adeptos este ano?
Sentimos o interesse dos adeptos do nosso clube. Por isso agradecemos o apoio incondicional, eles ajudaram-nos a ganhar, quer fora de portas, como no nosso pavilhão. Fizemos, em conjunto, uma onda de entusiasmo, conseguimos trazer outra vez a esperança de que o basquetebol do FC Porto está bem vivo, acreditando que seria possível ganhar. Não fomos capazes de lidar - talvez isso fosse uma situação completamente nova - com o facto de jogar perante tanta gente do FC Porto, 5 000 pessoas, ao nível da ACB ou até de finais europeias de basquetebol.

FC Porto
Uma equipa vencedora

O responsável máximo do nosso Clube, o Presidente Pinto da Costa, o seu staff, gente do Clube, dirigentes, pessoal administrativo, o trabalhador mais anónimo do nosso Clube, os atletas e ex-atletas de outras modalidades, antigos colegas, sócios de todas as idades, homens e mulheres, jovens e crianças, todos eles nos fizeram sentir emoções fortes de apoio. A nossa vontade era de facto partilharmos com eles a conquista do campeonato, mas não nos foi possível.

«Perdemos nos últimos 45 segundos do 7º jogo»

fcporto.ws: O que faltou para metermos a Ovarense «no bolso»?
Não foi fácil jogar contra a Ovarense durante a época. Perdemos muitas vezes, algumas delas depois de estarmos a comandar o marcador por muito tempo. Não conseguíamos aguentar a alta pressão que eles faziam ao nosso Base/2º Base Marques Houtman, este tinha grandes dificuldades quando pressionado.

Várias vezes houve necessidade de introduzir jogadores de outras áreas de posição para fazer o fazer do papel de Líder. Por exemplo, o Gustavo Mota, Augusto Sobrinho e o Paulo Cunha. Dizia aos meus jogadores e também o disse em directo para os «média» que haveríamos de ganhar a esta Ovarense quando encontrássemos um base que liderasse a equipa. Promessa feita e cumprida, ganhamos 3 jogos na fase crucial do campeonato (play-offs) e perdemos o dito campeonato nos últimos 45 segundos do 7º jogo. Nos pequenos detalhes se ganham ou se perdem jogos, mas, nele espaço de tempo, uma falta de concentração de um jogador na realização da TAREFA que lhe estava distribuída (acção defensiva) ditou o desfecho final.

fcporto.ws: Fez falta termos um pavilhão próprio?
O drama de não termos o nosso pavilhão deriva do facto de não podermos, todas as semanas partilhar com todos os nossos simpatizantes as alegrias das vitórias dentro da nossa casa, o facto de podermos, nós e os outros colegas de modalidades, conviver, discutir, apoiar e também "obrigar" os adversários a sentirem o calor do apoio frenético, intenso e bom dos nossos sócios.

fcporto.ws: Que balanço faz da temporada que terminou?
A época foi muito traumatizante. Lesões de vária ordem, meses sem poder contar com jogadores nucleares, jogos de 3 em 3 dias, viagens, derrotas, vitórias, altos e baixos, mas depois da tempestade vem sempre a bonança. E essa veio com a contratação de um jogador para a posição de base. Trouxe clarividência e estabilidade ao grupo, sabíamos isso e sabíamos que quando estivéssemos todos, iríamos ser felizes. Vencemos a Taça de Portugal, e acabamos por conquistar o 3º lugar da Liga já no último fim-de-semana do campeonato.

Alberto Babo
Justamente homenageados no Dragão

Partimos cheios de confiança para os play-offs , eliminámos o Ginásio, que tinha sido o carrasco do FC Porto no ano anterior, defrontámos e vencemos o Benfica, à melhor de 5 jogos e na sua casa, e acabámos por perder o campeonato, para aquela equipa que tem o melhor plantel, mais equilibrado, cheio de campeões do FC Porto do passado, «na negra» e nos últimos 45 segundos.

Não nos satisfaz o facto de termos sido os Vice-Campeões, mas saímos com a cabeça levantada, com o orgulho que não demos nada a ninguém, antes pelo contrário, lutando sempre com uma atitude altamente dignificante para com o nome e a grandeza do nosso Clube.

fcporto.ws: Falemos um pouco de métodos de treino. Faz uso de software de análise estatística ou de outros meios? Qual o impacto na análise ao próprio jogo, e ao dos adversários?
Gravamos todos os jogos, quer por iniciativa própria (clube), como também temos troca de DVDs com outros clubes. Visionamos vários jogos do mesmo adversário em muitas fases do tempo, retiramos o que nos interessa, quer nos aspectos colectivos (defesa e ataque), como as acções individuais de cada adversário. Compilamos um dossier com informações detalhadas, desde análises estatísticas, características de cada jogador etc. Mostramos essa documentação no dia anterior ao jogo, mas durante os treinos que antecedem o jogo, trabalhamos os aspectos tácticos do adversário, como atacar, como defender, para que os jogadores tenham o mais possível de informação e minimalizem os efeitos positivos de cada um dos jogadores adversários.

fcporto.ws: Dê-nos a ideia de como é que foi a programação de treinos esta época...
Tivemos 58 jogos e entre 1 de Setembro e 26 de Maio. Na pré-temporada (1 Set/31 Out - 1º jogo do campeonato) fizemos 74 treinos bi-diários. Em competição (1 de Novembro até ao fim dos play-offs, 26 Maio) fizemos 142 treinos, por vezes bi-diários. No total, foram 216 treinos.

fcporto.ws: Professor, é verdade que foi posta a hipótese de acabar com o basquetebol no FC Porto?
Não, nunca foi posta essa questão de findar o basquetebol. Esta modalidade tem história, mas há alturas em que as pessoas que estão á frente dos destinos da modalidade se sentem pouco acompanhadas, porque nem sempre conseguem aquilo que é fundamental para desenvolver e apresentar equipas altamente competitivas.

fcporto.ws: Diz-se que o nosso orçamento é menos de metade dos orçamentos do SLB e Ovarense Aerosoles? É verdade?
É de facto muito inferior á da Ovarense e do Benfica, mas gostaria de não me debruçar sobre esse tema porque ela só diz respeito á minha Direcção.

fcporto.ws: O que mudava no actual figurino de competição da Liga?
Estou plenamente de acordo com este tipo de campeonato, mais jogos, mais visibilidade, por parte dos espectadores e dos «média», mais emoção, mais suspense, etc.

fcporto.ws: O Nuno Marçal e o Mascarenhas são para manter?
O Nuno, Mascarenhas, Paulo Cunha, são jogadores que pela sua qualidade interessam-nos e muito, como nos interessam outros grandes jogadores portugueses e também americanos que participaram neste ano na nossa Liga. São assuntos que devem ser tratados com confidencialidade, mas sabemos que existem equipas com um poderio económico muito grande e que aglutinam tudo o que nós muitas vezes "cobiçamos".

fcporto.ws: Qual dos 4 jogadores «ex-porto» que jogam na Ovarense queria ver regressar, se é que queria algum?
Os jogadores da Ovarense e que são oriundos da formação do nosso clube fizeram uma opção de escolha, gostaríamos que tudo que plantamos fosse nosso, e que pudessemos colher os frutos desse trabalho por muitos anos. Não é possível, por isso não vale a pena falar desse tema.

fcporto.ws: Dos jovens da equipa, qual é o que tem um futuro mais promissor?
No FC Porto existem alguns jovens de grande qualidade. Têm todas as condições para singrar na equipa principal, mas, há sempre um «mas». Chegar ao cimo da carreira (jogar nos profissionais) pressupõe uma capacidade de sofrimento, de humildade, de capacidade de aprender, de trabalho e dar muitas e muitas horas ao basquetebol, treinando as suas capacidades, repetindo as suas dificuldades mesmo sacrificando as suas horas de laser. Direi que 4/5 são fáceis de detectar mas isso só será possível se eles quiserem. Está nas suas mãos.

fcporto.ws: Qual foi o melhor jogador que já treinou?
Tive muitos bons jogadores, mas aquele que me ficou para sempre, pela sua inteligência e capacidade de aprendizagem, senhor de uma técnica acima da média, foi o saudoso Paulo Pinto.

fcporto.ws: Na sua opinião, quem foi o melhor de sempre a actuar em Portugal?
Para mim, e como fui colega dele, juntamente com o Dr. Fernando Gomes e o Fernando Assunção, onde fomos Campeões Nacionais, direi que foi o Dale Dover. Foi o melhor jogador, rápido, como uma impulsão incrível (parava numa fracção de segundo em pleno ar), com uma habilidade de mãos, um dribling como um globetrotter, fortíssimo a defender, um «show man», como na altura diziam as pessoas que amavam o basquetebol.

«Sou um amante do basquetebol Espanhol»

fcporto.ws: O que é preciso para o nosso basquetebol se afirme na Europa?
Muita coisa teria que mudar. As mentalidades dos nossos dirigentes, a intervenção concreta dos agentes económicos de cada região no apoio ao desporto, uma política concreta desportiva por parte das forças políticas que comandam as nossas cidades ou regiões, uma orientação desportiva clara do desporto escolar, sendo estes o 1º veículo transmissor para o desenvolvimento da prática desportiva. A intervenção dos ex-atletas e treinadores com uma experiência muito grande para poderem ensinar e dinamizar com qualidade o basquetebol português.

fcporto.ws: Qual é que seria o seu «cinco» ideal para o Eurobasket?
Filipe da Silva (João Figueiredo), Paulo Cunha, Carlos Andrade, Miguel Miranda e Elvis Évora.

fcporto.ws: Espanha...tão perto e tão longe...
Sou um amante do basquetebol Espanhol. Sigo tudo sobre a suas equipas. Revejo-me muito neles, na sua filosofia, nos seus conceitos, e isso ficou a dever-se aos inúmeros contactos que tive, quando treinador do FC Porto (adjunto de Jorge Araújo), e com equipas do Porto, fazíamos tournées em Espanha a jogar diariamente. São altamente profissionais, são competentes, e são acima de tudo exigentes. Têm a liga mais competitiva da Europa e do Mundo (excepto a NBA).

fcporto.ws: Fale-nos dos seus jogos internacionais...
Tive a sorte de participar nos campeonatos da Europa com o FC Porto e o Queluz. Joguei na ULEB Cup, tenho cerca de 56 vitórias a nível internacional. Fui com uma equipa do Porto (Jared Miller/Paulo Pinto, Marçal, Rocha etc) até à 1/2 final da Taça Saporta. Com o Queluz fui à final da Europa Cup, com o Dijon, perdendo essa final no prolongamento. Na 1ª vez que participei na ULEB Cup, ganhámos 6 jogos. Foi um feito, jogando com equipas de orçamentos abismais etc.

fcporto.ws: É sócio do FC Porto nº?...
Nº 2548, há muitos e muitos anos. Já perdi a conta, mas é verdade.

fcporto.ws: O que pensa dos comentários menos abonatórios que por vezes vê no nosso Fórum?
Quando alguém tece certos comentários pouco abonatórios, mesmo sendo da nossa família de portistas, só temos de ler e passar á frente. Agora não podemos é aceitar que nos apelidem de incompetentes se as pessoas que o escrevem não estão inseridas dentro do meio do basquetebol. Ter opinião todo a gente a tem, mas desrespeitar o profissionalsimo, com agressões verbais, isso não. Dói, mas como Treinador sei seguir em frente no pressuposto de que também falho, também acerto e a vida é feitas dessas coisas.

fcporto.ws: O que pensa sobre o Portal dos Dragões?
Ouvi falar deste site há pouco mais de 3 meses e meio, através de vários amigos, que falavam sobre o conteúdo dos temas tratados. Inscrevi-me no Fórum e verifiquei que aborda tudo sobre a vida do clube.