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Testemunhos de glória
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Testemunhos sobre a Champions League de 2004:
Diário de Gelsenkirchen (13/12/04, Vitor Jobling)
A vida tem destas coisas. Depois de Sevilha nunca pensei que um ano depois pudesse estar noutro local do globo a ver a final da Liga dos Campeões. Ainda por cima com o meu FCP presente.
Desta vez foi um bocado mais fácil arranjar bilhetes e soube com alguma antecedencia que estaria presente. A viagem de avião entre Copenhaga e Niederrhein já estava marcada à muito e só faltava a camisola 2003/2004 para completar o pacote. Essa seria trazida pelo meu pai e pelo meu irmão que viajaram directamente de Portugal.
A partida estava marcada para as 8:30 da manhã do jogo. Levanto-me às 5:00 da manhã, recebo o pedido da minha musa "Traz a Taça!", só para chegar ao aeroporto e receber a notícia que o voo estava atrasado hora e meia. Às 10:00 lá estavamos de partida. O comandante pede desculpas mas o avião teve problemas técnicos e devido a questões burocráticas houve o atraso. São coisas que deixam um passageiro mais descansado... é cada uma!
A aterragem uma hora depois em solo germânico foi mais um momento em grande. O avião não aterrou... caiu! Foi a aterragem mais esquisita que já vivi. Mas pronto. Estava em solo e agora só interessava ir para Gelsenkirchen.
Como o avião de regresso era apenas às 14:30 do dia seguinte e não tinha conseguido hotel nem haveria comboio para me levar de volta para o aeroporto antes das 4 da manhã, decidi alugar um carro que me permitiria alguma liberdade. Lá me alugaram um Peugeot 206 AZUL... senti que ia dar sorte. Quando um gajo está assim nervoso precisa de arranjar qualquer coisa para acalmar. E pensar que a cor de um carro é sinal de boa sorte é uma maluqueira só possível em dia de final da Liga dos Campeões.
O caminho para Gelsenkirchen foi complicado. Algo perdido até encontrar um ponto de referência, andei cerca de 45 minutos num raio de 5 km do aeroporto. Depois de me habituar às indicações germânicas e ter encontrado a auto-estrada que procurava foi facilimo chegar ao estadio. Pelo caminho passei por muitos carros com bandeiras e cachecois azuis e brancos. A buzina funcionava e dei-lhe uso. A festa começava.
De Portugal chegavam notícias de valentes atrasos nos aviões. Teria de esperar longas horas sózinho. Bem... Sózinho não é exactamente o termo. Logo que cheguei ao estádio deu logo para perceber que já lá estavam milhares de portistas e alguns adeptos do Monaco. Decidi dar uma caminhada de reconhecimento e levantar um dinheirito para comprar as recordações habituais (programa, t-shirts, cachecois, etc.). Foi aí que descobri que encontrar um alemão que falasse inglês e que me fosse capaz de dizer onde ficava a caixa automática mais perto seria uma aventura. Foi aí também que descobri que as claques do FCP estavam carregadas de bilhetes para vender. Cheguei a ser abordado porque queriam saber onde é que os adeptos do Monaco estavam a comprar. A droga também não faltava. O cheiro era bem evidente e o que não cheirava também não era escondido. Mas enfim.
Duas horas e tal mais tarde lá encontrei a caixa automática. Comprei o que tinha a comprar e dirigi-me extenuado para o carro para descansar um pouco enquanto o Victor e o Nuno não chegavam.
Eram 17:45 quando os "morcões" chegaram. Reunião familiar. Distribuição de presentes (era dia de aniversário do puto) e lá vamos nós para mais perto da entrada. Reinava um ambiente de boa disposição e festa.
A entrada no estádio significava separação. Infelizmente os bilhetes eram para secções diferentes do estádio. Lá me dirigi sózinho para um lado e eles para o outro. Entretanto encontrei o meu amigo Carlos Castro que estava na mesma zona do estádio que eu. Ultimas compras, boa sorte e lá fui para o meu lugar, diga-se de passagem excelente. Fila 3 num dos cantos do estádio, mesmo por cima do símbolo do FCP do lado direito da baliza onde Carlos Alberto marcou o golo. A Arena do Shalke 04 é imponente, um estádio fabuloso com linhas modernas. Fiquei muuito impressionado.
A festa era muita. Os animadores puxaram pelas duas claques. O alemão que dirigia o grupo de animadores era incapaz de acertar no nome da equipa portuguesa e repetia sempre "Clube Futebol do Porto". Apeteceu-me espancá-lo sempre que ouvia isso, mas entretanto entra a equipa do FCP para aquecer, com Baía e Silvino na frente. Depois das equipas recolherem ao balneário, um exibição diria monumental dos International Artists of Europa-Park, que termina com dois panos gigantes suspensos com os simbolos dos dois finalistas. Lindo.
Entrada das equipas em campo. Nervosismo. Verifico o batimento cardiaco. Parecia minimamente aceitável. Ínicio do jogo.
Depois de alguns minutos em que a equipa do FCP andou praticamente perdida dentro de campo, o jogo foi equilibrado e mau. Foi quase anti-stress. Nenhuma das equipas causava perigo e as oportunidades de golo nulas. Chegou a uma altura em que quase me esqueci que estava a ver a final da Liga dos Campeões. Quando já se suplicava pelo intervalo para dar oportunidade ao Mourinho para lançar os pózinhos mágicos habituais, Carlos Alberto faz um grande golo que faz os portistas explodir de alegria. A partir daqui o nervosismo aumenta em flecha. O intervalo chega sem novidades.
Ao intervalo reinava a boa disposição. O jogo não tinha sido bom mas o resultado agradava.
A segunda parte começou mal como a primeira. Alguns erros. Mas rapidamente a equipa se pos de pé e começou a controlar perfeitamente o jogo. Parecia claro nesta altura que o Monaco era incapaz de causar perigo e ao mesmo tempo dava ao FCP todas as hipóteses de contra-atacar. O meio campo despovoado o Monaco dava espaços para Deco brilhar. No entanto o FCP demorou a aproveitar e só quando Alenitchev rendeu Carlos Alberto é que o FCP explodiu para uma exibição brilhante. Foram 25 a 30 minutos de futebol de alto nível em que podiamos ter goleado o Monaco. Deco faz o 2-0 e começamos realmente a ficar convencidos que o caneco era nosso. Logo de seguida o 3-0. Recebia SMS a todos os minutos. Telefonei para a minha mãe e a chorar disse-lhe que "já ninguém nos tira esta". Doia-me a garganta de tanto gritar. Ainda falo ao telefone com dois queridos amigos, para sentir a alegria que ia em Portugal. O meu pensamento já só ia para a festa que se ia fazer no Porto e para o meu pai e irmão que estavam lá em cima e que eu queria muito abraçar. Os minutos finais duraram uma eternidade. Mas o fim chegou e a alegria era indiscritivel. O sonho tinha-se transformado em realidade. O Futebol Clube do Porto era Campeão Europeu. Ali estava a taça a uma dezena de metros de mim. Uma equipa fabulosa com um treinador galáctico e um presidente de outro mundo. Fantástico.
Saio quando a equipa abandona o terreno. No ponto-de-reencontro ainda não estavam o Victor e o Nuno, morcões, perderam-se e não sabiam como chegar lá. Uns 15 minutos mais tarde foi o tal abraço emocionado. Todos somos portistas do coração e estavamos a viver um momento que sabemos quase único.
Algum tempo mais tarde a despedida, como sempre dolorosa, mas apesar de tudo com muita alegria. Dirigo-me ao carro completamente de rastos. Muito trânsito para sair da zona do estádio. Mais umas voltas meio-perdido para encontrar a auto-estrada. Andei bastantes quilómetros numa auto-estrada que julgava ser errada mas que afinal era a certa. A meio do caminho o sono "bateu" forte e decidi encostar num parque de descanço e dormir um pouco. A pressa não era muita. Dormi umas 2 a 3 horas, acordando de 5 em 5 minutos para verificar que estava em segurança. Depois o frio tornou-se tanto que decidi por-me de novo a caminho do aeroporto, onde cheguei por volta das 4:30. Esperavam-me 10 longas e penosas horas. Felizmente que fui encontrando alguns portugueses, que foram boa companhia. Um deles partiu mais cedo para Londres, os outros vinham para Copenhaga. À hora lá partiu o avião. A aterragem foi outra vez péssima. Por momentos pensei que a ia fazer water-ski. Mas lá cheguei. Cansado. Um abraço de campeão ao chegar a casa.
Para o ano há mais. Bibó Porto Carago!
1 abraço PORTISTA
Vitor Jobling
PS: Um obrigado especial à minha mãe porque mais uma vez fez tudo para que eu pudesse estar numa final europeia com o Porto e ao meu pai pela mesma razão e pela companhia. E claro ao meu irmão, meu companheiro inseparável de finais Europeias. Para eles todos foi um presente de aniversário do maior requinte.
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