Testemunhos de glória

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Testemunhos sobre a Taça dos Campeões de 1987:

Estive presente na final...(03/12/04, Carlos Costa)

Estive presente na final da Taça dos Campeões, em 27/05/1987, no Estádio do Prater. A viagem Lisboa-Viena, demorou 2 dias. Correu tudo bem e, para poupar uns escuditos, dormimos no autocarro. E então, eis que chega o grande dia, eis que chega a hora H. Devo dizer que durante as horas que antecederam a final, eu estava um pouco tenso (julgo que seria normal), afinal de contas era apenas a 2ª final europeia que vivíamos e também para esta não eramos favoritos.

Os alemães cantavam vitória. Os portugueses participavam na festa e diga-se a verdade já não era mau, mas queríamos algo mais. Entrei no Estádio do Prater, às 18h00. Fiquei atrás da baliza, onde marcámos os 2 golos. Continuava tenso e cada vez mais nervoso.

E pensava para comigo, e se ganhássemos este jogo? E se ganhássemos esta Taça? O que aconteceria aqui? E no Porto? E eis que começa a grande final. Os alemães começam a dominar o jogo. E eu pensava : "que falta fazem o Lima Pereira e o Gomes".

Golo, golo, mas era golo do Bayern. Incrível. Então o Mly, com as mãos enormes que tem, não chega áquela bola? Pronto já fomos.

Eram estes os comentários na bancada onde eu estava. Ah já me esquecia, na bancada onde eu estava, havia bandeiras do Porto mas também do Sporting, do Benfica e até uma da Académica. E, estavam também muitos emigrantes. E todos puxávamos para o mesmo lado, mas os emigrantes, meu Deus como eles vibraram, como eles sofreram, como eles no final deliraram.

Voltando ao jogo, continuávamos descrentes. O Bayern estava de facto a jogar melhor. Ai, quase que marcavam outra vez. Intervalo. Regressam as equipas, entraram o Frasco e o Juary. Não percebi estas substituições. Mas, o Porto vem com outra disposição. Joga melhor, pressiona, pressiona, tenta o golo. Grande jogada, diria fantástica do Futre e, que apenas não resulta em golo por um daqueles acasos do futebol. Entramos no último quarto de hora de jogo. A descrença começa a apoderar-se de quase todos nós. Porque os que estão em campo (os jogadores), esses ainda acreditam. E de repente, dois minutos mágicos. Golo de Madjer, o tal do calcanhar mágico. Como delirámos naquele momento e, voltámos a acreditar. Logo de seguida, golo do Juary, após fantástica jogada de Madjer.

Aqui sim, foi o delírio por completo mas, ainda faltavam jogar mais 10 minutos. Seria possível manter aquele resultado? Porque é que não podia acabar ali o nosso sofrimento? Porque tínhamos de sofrer ainda aquela eternidade? E, estávamos nestes pensamentos, quando eis senão o Sr. Ponnet apita para o fim do jogo. É a loucura. Indescritível o delírio, a alegria que se apossou de todos os portugueses. Afinal tínhamos ganho.

Tinha valido a pena todo o sofrimento porque havíamos passado. A viagem de 2 dias, o dormir no autocarro, tudo isso. As bandeiras esvoaçavam ao vento, a festa continuava, a Taça já nos tinha sido entregue (lembram-se que o João Pinto não a dava a ninguém?), a alegria tocava-nos a todos. A Taça vinha para Portugal, para a nossa cidade do Porto. O FC Porto, era Campeão Europeu de clubes. Deixem-me dizer-vos, que os emigrantes viveram de uma forma especial esta vitória, era não só a vitória de um clube do seu país mas, muito mais que isso o afirmar perante a Europa, do nome de Portugal. Também por eles, eu senti a alegria da nossa vitória.

A viagem de regresso iniciou-se 2 horas após a final, e posso garantir-vos que demorando os mesmos 2 dias, passou muito mais rapidamente. Abraçámos as mesmas pessoas 2, 3 vezes. Pulámos, gritámos, cantámos o hino nacional aquando da nossa partida. Fizemos uma grande festa. A nossa festa. Já agora para terminar, deixem-me contar um episódio a que assisti já no final do jogo e que define a verdadeira filosofia do Dragão.

No parque onde se encontravam as camionetas, para regressarem aos seus locais de origem, vi um homem que aparentava ter 50/60 anos a chorar, e chorava convulsivamente. Pensei, será que chora de alegria? Caramba como é possível? Mas não, este homem chorava de alegria, mas de uma alegria mais profunda.

Nisto passa por aquele aglomerado de pessoas, o Engº Armando Pimentel (julgo que na altura seria dirigente do FC Porto). Este dirige-se ao tal homem e pergunta-lhe o porquê daquele choro convulsivo e, este responde-lhe (não sei se se conheciam): "Sabe Engenheiro, eu sofro de uma doença terrível (minutos depois apercebi-me pela conversa que seria cancro), sei que vou morrer dentro de poucos meses, mas já posso morrer feliz, o nosso Porto (dito com sotaque do Norte) é Campeão Europeu. O Engº Armando Pimentel, aproximou-se um pouco mais do homem e deu-lhe um abraço, um enorme abraço.

Eu a um canto, observando com atenção esta cena, deixei escapar umas lágrimas e pensei para mim mesmo : É esta a fibra de um verdadeiro Dragão. Ainda hoje, quando revejo estas imagens, a tal lágrima solta-se cara abaixo e, confunde-se com as alegrias que vivi naquele dia e noite mágica.