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Testemunhos de glória
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[CL04]
[TORN]
Testemunhos sobre a Taça dos Campeões de 1987:
Importam-se que sonhemos? (03/12/04, Júlia Guimarães)
1987. 27 de Maio. Viena de Áustria.
Estádio do Prater.
Final da Taça dos Campeões.
Saímos de Basileia combalidos mas mais equipa. Bola para a frente, perderamos entretanto o
Mestre, o mentor, mas consolidámos homens e ganhámos honra, glória e sucessivos títulos
nacionais. Três anos mais tarde, ultrapassadas estóicas etapas, chegamos ofegantes e
ávidos a mais uma Final.
Desta feita a da Taça dos Campeões da Europa. O adversário? Coisita pouca, coisita pouca!
Apenas o Bayern de Munique... Não contente, danadinha, a Sorte fez ainda questão de
nos subtrair dois dos nossos principais craques. Claro que ninguém no seu mais perfeito
importismo acreditava ser possível derrotar o colosso alemão, mas um punhado de
gente obstinada uniu-se em torno de um ideal e apostou em fazer história. Ousou sonhar.
Aqui e ali, foram muitos os os que encolheram os ombos, muitos os que se riram
dobrados sobre si mesmos, outros houve que bateram com o dedinho indicador na cabeça...
As apostas rolaram. Seria o pequeno David portuguesinho contra o gigante
Golias germânico. Que fosse.
Havia um jogo a ganhar e uma Taça para trazer para Portugal.
Deste dia lembro-me como se fosse hoje. Em plena febre dos eighties,
vesti-me do azul e branco do meu clube dos pés à cabeça e sentia-me eléctrica.
Uma clima intenso e o Porto-cidade parou. Hora do jogo, apito inicial e
tum-tum.Tum-tum. Vinte e tal minutos decorridos e os alemães marcam através
de Kögl, numa 1ª parte incipiente. 2ª metade. “Sonhamos ainda”.
Degluti o jantar que a mãe fizera, apressada, para logo de saída sair para a rua que
“em casa”, dizia ela, “não aguentava os nervos”. Não a critiquei.
Eu, incapaz de me sentar quieta um instante que fosse em frente
ao televisor, decidi ir buscar Descartes e sempre nos íamos aturando
um ao outro. “Penso logo existo, penso logo existo”, dizia-me ele...
“És mas é maluco”, ripostava-lhe eu e era mais “Porto, logo ganha! Porto, logo ganha!”
O Futre faz-me aquela jogada alucinante e falha o golo do empate. Pronto!
Entro em total desequilíbrio. Desato num choro convulsivo e como que
desisto. Sei que o Porto está em cima deles, mas recuso-me a
olhar para o écran, travando uma luta comigo mesma e as minhas
pálpebras e ver quantas lágrimas elas conseguem aguentar.
Minuto 77'. O profeta Rabah escreve poemas com o calcanhar.
Eu? A chorar ainda, mas de alegria, agarrada à minha irmã, esta abananada.
O racional e pessimista e contido pai de joelhos e a rastejar em frente à TV.
Lá fora, sons estranhos e vizinhas a gritarem “acuda!” que a mãezinha ameaçava desmaiar.
Ainda chorava o empate quando o Madjer, reentrado depois de ser assistido,
parte por ali fora como um tolinho e perante um mundo abismado, dá a marcar
o golo da vitória ao grande Juary Jorge dos Santos Silva. Sai um vizinho
para o hospital que rachou a cabeça no candeeiro da sala. E sorrindo com
todos os dentes que tinha.
Lindo, lindo, lindo.
A partir daí, pouco me lembro. Sei que li poesia, vi bailado e ouvi ópera.
Sei como é quando nos sentamos numa nuvem e quando quase morremos de felicidade.
O árbitro belga Alexis Ponnet (coisa mai'linda!) termina o jogo. Ganhei asas e
ascendi aos céus.
A cidade entrou em clima de perfeito pandemónio com pessoas doidas de alegria a
cantarem noite e madrugada fora. Uma festa inesquecível de boa, à qual me
entreguei com tudo o que tinha e que era tanto. Era o meu Porto. Era a minha Taça.
Era a minha gente. Era a minha cidade.
Sei também que por mais vitórias que tenha tido e que possa ainda vir a ter,
que esta foi a vitória da minha vida...
Sempre na minha cabeça o quadro de ouro com a equipa de campeões: Mlynarczyk,
"Capitão" João Pinto, Inácio, Celso e Eduardo Luís, Quim, Sousa,
Jaime Magalhães, Madjer, Futre e André. Mais o Frasco e o Juary.
E o Zé Beto, Casagrande e o Festas. O Gomes e o Lima Pereira de muletas.
E o baita do caneco reluzente nas mãos de um ! João Pinto
Menino Grande que parecia incapaz de o largar.
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