Testemunhos de glória

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Testemunhos sobre a 1ª final europeia (Final da Taças de 1984):

[Rewind] (30/11/04, Júlia Guimarães)

1984. 16 de Maio. Basileia, Suiça.
Final das Taças das Taças.
Não posso dizer que me lembro como se fosse hoje mas lembro-me de muitas imagens, muitos fotogramas cá dentro gravados. A azul e branco. Mas também, a preto e branco, as cores que engalanavam a esmagadora maioria do estádio.

O Futebol Clube do Porto dava-se finalmente a conhecer à Europa na sua primeira final. Orgulho imenso. Nervos infindos para o confronto contra A Velha Senhora. A Juve de todos os medos, todos os respeitos, todos os troféus, todos os nomes.

Assim quis o destino, caprichoso, que já antes – cruel e inapelavelmente – nos retirara da cena física a presença de José Maria Pedroto. Ao lado da figura omnipresente do velho Mestre, no banco, sentar-se-ia António Morais, fiel, competente, dedicado. Histórico.

Assim quis o destino, pois... Eles de um lado, nós do outro. Lá teria de ser. E era para ganhar. Os italianos também deveriam pensar assim porque logo abriram o marcador, num golo que desde logo bani da minha memória. Lembro-me que o meu craque da altura, o Sousa, o número 10 que fintava já na altura com os dois pés, empatou num remate oportuno bem ao seu estilo.

Depois disso, como que uma nódoa imensa. Na alma, no coração, nos olhos que passaram a ver tudo vermelho. De raiva, de impotência, de passividade forçada. Nesses minutos intermináveis, a minha ainda precoce listinha de inimigos figadais e de escória da Terra, ganhara mais um nome: Adolf (tinha de ser!) Prokop, dardos da minha imaginação a espetarem-se-lhe a toda a bolina em toda a superfície do seu reles, desprezível, desonesto corpo. Desenhei-lhe chifres na testa, um grande rabo atrás e um tridente na mão escanzelada. Boniek. Platini. Vis criaturas. Nunca mais os pude, consegui ver. Todos parceiros num crime de lesa-Humanidade.

Foi um hino ao futebol, a exibição da minha equipa, dos homens que idolatrava. Frasquinho, Joãozinho, Jaime Magalhães... Vermelhinho. Gomes. Chorei baba e ranho. Mas porquê, porquê, porquê?

Se nós merecíamos, se nós jogámos, se nós fizémos e acontecemos e vulgarizámos... para quê, porque perder?

Nesse dia aprendi muita coisa. O poder da bola, o poder do homem, o poder do dinheiro, o poder do nome. Os insondáveis desígnios de Deus. Para uma miúda a sensação de injustiça é um sentimento levado da breca. A modos que quando vejo o querido do Zé Beto qual justiceiro incansável, a correr - caracóis ao vento e espada em punho, montado no seu lindo corcel branco -, em direcção a um dos auxiliares e o agride, sinto que fui, fomos vingados. Claro que passei a adorar o Zé.

Perdemos. Nada mais restava. O mundo como que acabara para mim. Atento, quasi afogado no meu mar de lágrimas, o paizão levou-me à Avenida para nos juntarmos a uma imensa multidão de gente ferida na alma, mas que festejava a exibição, cantando o clube, os jogadores. “A Taça era nossa, A Taça era nossa”. Que era. Cantei e gritei e chorei com eles.

Alguns meses mais tarde, um grupo de sócios resolveu oferecer ao clube uma majestosa réplica da Taça das Taças que deveria ser por direito nossa.
Faltou um bocadinho assim.
Lá teria de ficar para a próxima vez.
Mas sentia que amanhã não seria a véspera desse dia.