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Testemunhos de glória
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Testemunhos sobre a Taça UEFA de 2003:
Diário de Sevilha (13/12/04, Vitor Jobling)
Nem parece real. Depois de já ter perdido a esperança de estar em Sevilha, 2 bilhetes caem
literalmente do céu. Quase em cima da hora conseguimos os 2 últimos lugares numa das
muitas camionetas que levam adeptos azuis e brancos para Sevilha.
À 1 da manhã saimos de casa. As palavras do Pôncio Monteiro na RTP dão o mote. Vamos a
Sevilha para vencer. Entre o "traz a taça" do pai e a choradeira da mãe saímos com
a certeza que vamos viver um momento único. Os lugares 29 e 30, camioneta 4. O
motorista liga o motor e aí vamos nós. Partimos da câmara municipal de
V.N. Gaia com uma pontualidade britânica. Britânicos? Até os comemos carago...
A boa disposição reina e o ambiente varia entre o optimismo e a euforia.
Pela frente ficam cerca de 10 horas e meia de viagem com paragem na estação de serviço de
Leiria. Nada a registar a não ser policiamento quanto baste... intervalo de 40 minutos.
A 2a paragem é na estação de serviço de Grândola. O sol apareceu no Alentejo. O mesmo
sol que vai iluminar os dragões em Sevilha. Até Sevilha só mais uma pequena paragem
para xixizinho na fronteira.
Às 11:55 finalmente o estádio olimpico. Alguns adeptos dos 2 clubes. A maioria provavelmente
ainda no centro de Sevilha. Segundo os responsáveis pela viagem, devido ao corte do
tráfego para a cidade não podemos visitar o centro de Sevilha... Ninguém acredita mas
não há nada a fazer. Tempo para comprar algumas recordações. O calor é quase insuportável
e resta-nos uma espera de 5 horas e meia para o abrir dos portões, apenas animada pelos
directos para a TV (onde está o Animal?) e pela irreverência para já engraçada dos adeptos
do Celtic. Entretanto o mercado negro está à vista de todos: 500€ é o valor pedido por um
conjunto grande de pseudo-adeptos portistas.
O calor é cada vez mais insuportável. A única sombra que se arranja é por baixo de um
viaduto à entrada do estádio. Sentados no chão pois claro. O que vale são as miúdas giras
a passar :))) a dar ânimo ao pessoal. O fio dental foi realmente uma óptima invenção...
As filas para entrar no estádio começam a formar-se por volta das 16:30. Tudo muito civilizado.
Sem focos de tensão a não ser uns senhores policias espanhóis a cavalo que mereciam dois pares
de estalos, mas a intervenção dos stewards do FCP acabou por solucionar um problema que
ninguém percebeu porque começou.
Às 17:30 os portões abrem. Às filas espontaneamente bem feitas segue-se o caos habitual do
"empurra-empurra" tudo porque as entradas nos portões exteriores davam para um pátio
onde se juntavam as pessoas que entravam em 4 ou 5 portões distintos. A passagem
desse pátio para o interior do estádio era marcado pelas revistas, que podiam ter
sido feitas anteriormente para evitar confusões mas... enfim... o que importa é que
estavamos lá dentro. Hora para "deitar fora" os litros de água bebidos durante o
dia e para reabastecer nos bares do estádio. Água 1€, Cola 2€... o negócio a bulir.
Procuramos o lugar no estádio. Os lugares "marcados" já estavam ocupados. Restava-nos ir para
outro lado e ter a esperança que a nossa escolha não fosse reclamada mais tarde.
Tivemos sorte. A sombra das bancadas foi um bálsamo para uma tarde fisicamente desgastante.
Primeira supresa da tarde: a exaustão dos fumos dos bares do estádio, que resultavam das
centenas de hamburguers e cachorros, era feita não para o exterior do estádio mas para a
bancada... sim... para a bancada... mais precisamente, as mini-chaminés tinham saída
debaixo de um par de cadeiras umas 7 filas à nossa frente. Ninguém queria acreditar.
19:00. Primeira explusão de alegria na bancada Sul: a equipa do Porto sobe ao relvado ainda de fato e gravata. Começam os cânticos numa altura em que apenas 1/4 dos adeptos do Celtic estavam dentro do estádio. O Olímpico era nosso :))).
As quase 2 horas passaram bem rápido. A animação foi óptima... nesta altura já dava para perceber que os adeptos do Celtic eram MUITOS... MUITOS mesmo... estavamos claramente a jogar fora de casa. Os cânticos alternados, as Sevilhanas a dançar, as cheerleaders dinamarquesas foram entretendo da melhor maneira o pessoal.
20:00 A equipa do FCP entra em campo para o aquecimento depois dos dois 11 terem sido anunciados. A equipa era a esperada.
As equipas regressam aos balneários. As Ketchup (des)animam a malta e entretanto estava na hora. As equipas entram em campo... o coração bate acelarado. Nesta altura a garganta já não emitia os sons habituais, massacrada que estava pelos cânticos anteriores.
A primeira parte é nossa, mas a lesão de Costinha assustou e parecia faltar algo à equipa. Deco estava em grande e Derlei marca ao cair do pano. Um fim de primeira parte de sonho... explosão de alegria e a esperança que o golo fizesse a equipa do FCP pegar definitivamente no jogo.
O ínicio da segunda parte é de loucos. Larsson marca, Alenitchev desempata para mais uma explosão de alegria e o sueco volta a estragar a festa. Por momentos a equipa e o público estremeceram. Foram precisos alguns minutos para o FCP equilibrar as coisas. Mas o jogo estava aberto e podia pender para qualquer dos lados. O nervosismo apoderava-se das bancadas e quem pagava era o árbitro. Alguns cartões para jogadores do Celtic a ficarem no bolso e a impaciência crescia. Em cima da hora Alenitchev falha um golo certo...
Chegava o prolongamento e parecia que os jogadores do Celtic estavam mais frescos. Mas o FCP apesar de ter Deco e Derlei inferiorizados, depois de tanta porrada que apanharam, pegou no jogo e embora inconsequente no ataque sempre fazia os escoceses correrem atrás da bola. A expulsão de Balde (pecou por tardia) acaba por dar claramente a vantagem ao FCP. No entanto os passes errados, devidos ao cansaço dos jogadores, faziam crer que estavamos perto dos penalties. Tudo podia acontecer. Mas o optimismo era grande. Quem tem Baía na baliza está sempre em vantagem :))))...
10 minutos da 2a parte do prolongamento: Maniche faz um passe genial para a corrida de Marco Ferreira. Douglas chega primeiro mas a bola sobra para Derlei. Depois de ter corrido durante 120 minutos, de ter apanhado um arraial de porrada que o obrigou a ser assistido 3 vezes... o Ninja tem a cabeça fria para tirar um defesa e o guarda-redes na frente e chutar para a baliza. Um defesa em cima da linha de golo queria estragar a festa... mas a bola passa. Era o 3-2...
A partir daqui é difícil arranjar palavras. Ao meu lado esquerdo as lágrimas escorriam na cara do meu irmão. Ao lado direito as lágrimas escorriam na cara de um adepto sexagenário. Segurei as minhas... insultei o árbrito que nunca mais acabava a porra do jogo. OK... faltavam dois minutos para o fim do tempo regulamentar... e depois??!!... o gajo já tinha dado descontos a mais. Fim do tempo regulamentar... mais 4 minutos??? sacana!!! Acaba com essa MER**...
ACABOU!!!
A partir daqui não há mesmo palavras... há abraços, lágrimas... um sonho tornado realidade. Algo indescritivel. Tentar ligar para a família e namorada... rede congestionada... porra... a taça era nossa... Jorge Costa, o grande capitão, tão grande como João Pinto, o capitão de Viena, levanta a taça. "Salta a tampa" (palavras dele) a Mourinho... ele corre para a zona dos adeptos do FCP que lhe prestam a devida homenagem. A melhor treinador que eu vi treinar o FCP. Os jogadores passeiam a taça. Finalmente consegue-se telefonar para família e amigos... sente-se a emoção em Portugal!! Pinto da Costa sentiu-se mal... AI O CARAGO!!! Mas já está bom... UFFFAAAA... um gajo apanha cada susto. O desejo era voar rapidamente para o Porto... mas ainda tinhamos uma longa viagem pela frente.
Antes de sair do estádio o meu irmão cumpre o último ritual. Enche uma garrafa de água no estádio e guarda-a religiosamente "água do estádio olímpico de Sevilha"... a água da final. Mais tarde em casa coloca um autocolante na garrafa para que não haja engano e guarda-a com dezenas de outras recordações. Isto de ser adepto do FCP é um "problema"... começa a haver pouco espaço para tantas recordações.
Regressamos ao transporte que nos ía levar de volta. Sem voz, completamente encharcado de suor, nem as dores de costas me impedem de dormir um sono de campeão. As mesmas 11 horas que demorou a viagem de volta foram bem mais curtas. Pequeno-almoço em Leiria: 2 pastéis de nata, 2 donuts, 1 meia de leite, 1 sumo de laranja, 1 bolo e 2 sandes mistas e 1 sande com panados. Tudo para 2 pessoas. Engolimos como se já não comessemos há 2 semanas. Próxima paragem Vila Nova de Gaia.
Pouco passava das 9 horas da manhã quando "aterramos" em Gaia. A Avenida da Républica com muito trânsito apita à nossa passagem. Primeiro quiosque "quero todos os jornais com o FCP na capa!"...
A partir daqui não interessa... o melhor tinha ficado para trás.
A aventura atrás descrita vai ficar para sempre gravada na minha memória. Sou daqueles que me emociono facilmente com as vitórias do meu Futebol Clube do Porto. Provavelmente é algo de irracional, mas o Homem não vive só de racionalidade e são estes momentos bonitos que mais tarde recordamos.
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