Testemunhos sobre a cidade do Porto

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«As Antas» (Luís Paz da Silva, 22/11/02)

"O Porto é a terra das minhas saudades." Alexandre Herculano

Não se pode falar do Futebol Clube do Porto, sem se falar da cidade que lhe serviu outrora de berço e hoje de trono. Por isso, aceitei escrever uma série de apontamentos sobre a história da cidade. Ao longo destas crónicas, procurarei salientar mais o pitoresco de algumas estórias e menos da história propriamente dita, trabalho para o qual não tenho habilitação nem saber. Mas de pequenas estórias se compõe também a História, e a do Porto é riquíssima por se tratar de cidade com raízes mais fundas que a própria fundação de Portugal.

"... e o faço couto firmíssimo, por seus termos que são por Lueda; e daí pelo Ribeiro do Conairo, que corre junto ao Paço de Garcia Gonçalves; e daí pelas Petras Fixiles..." Carta de doação e couto e burgo do Porto a favor do bispo D. Hugo e seus sucessores - 18 de Abril de 1120

Petras Fixiles era o nome que então se dava à zona das Antas. Pela toponímia se conclui pela existência de mamoas ou antas, certas disposições de pedras, megalíticas, da época pré-histórica, que se supõe serem construções sepulcrais. Outros, como Alberto Sampaio, defendem ser as petras fixiles não monumentos funerários, mas antes pedras de demarcação territorial. Seja como seja, havia nas cercanias outras toponímias cuja conotação megalítica é óbvia (Mamoa Pedrosa, por exemplo).

Para além desta referência constante do foral que D. Teresa, mulher de D. Henrique, outorgou ao Bispo D. Hugo no século XII, confirmado por D. Afonso Henriques em Maio de 1138, e que entregou o domínio do Porto à mitra por dois séculos (até ao reinado de D.João I), pouco mais consta desta zona até ao século XIX. O que se compreende. O burgo era essencialmente o morro da Penaventosa, onde se erguia a Sé Catedral e zona circundante até Miragaia, a oeste e à Batalha a leste. Em suma, a zona da cidade que se abrigava no interior da muralha dita fernandina. A zona das Petras Fixiles, melhor dizendo, a freguesia de Campanhã, era, por isso, considerada termo da cidade e como tal muito longe (pense-se desde logo que D. Jerónimo de Távora, deão da Sé do Porto, mandou construir em 1742, sob traço de Nasoni, o Palácio do Freixo para lhe servir de residência de veraneio...).

Era área rural, ocupada por alguns casais (as inquirições de 1258 de Afonso III mencionam onze casais foreiros à coroa em Gontemir - actual Contumil - um tudo nada a norte do actual estádio).

Ideia do que aquelas terras então seriam, dá-nos um relato do Capitão Costa, responsável pelas fortificações desde Campanhã até à Póvoa, aquando do cerco de 1832-33, a quem o Rei-Soldado D. Pedro encarrega de levantar uma trincheira no Monte das Antas : "As obras das Antas vão muito lentamente, por haver poucos operários (Por certo os Srs. Rui Rio e João Loureiro adorariam que esta frase fosse mais actual...). O inimigo atacou o pinhal quando se estava no corte de madeiras. Os galegos e carpinteiros fugiram".

O local onde o Estádio se encontra implantado, era a antiga quinta de Salgueiros, havendo a ela referências já em 1758, através das "Memórias Paroquiais" de João Camelo de Miranda, Reitor da Igreja Paroquial de Campanhã. A essa quinta pertencia a capela que ainda hoje se avista da VCI, abandonada e já soterrada pela vegetação junto à superior norte do estádio - a capela de Nossa Senhora da Estrela.

A ideia da construção do estádio surge em Setembro de 1933, sendo a escritura de compra dos terrenos, após obtenção de financiamentos angariados por uma comissão instaladora que se formara naquela data, assinada em 8 de Fevereiro de 1948. O terreno, como se disse pertencente à Quinta de Salgueiros, tinha 48.000m2 (o que não evitou expropriações posteriores, por insuficiência daquele espaço) e custou 1.400 contos! A primeira pedra foi lançada em 4 de Dezembro de 1949.

Da autoria do Arquitecto Oldemiro Carneiro e do Engenheiro Miguel Resende, seria o estádio inaugurado a 28 de Maio de 1952, na presença do então presidente Craveiro Lopes. O jogo inaugural foi contra o Sport Lisboa e Benfica, mas a história é omissa quanto ao resultado final dessa contenda.

Em 1958 é inaugurado o campo de treinos a que se lhe segue a iluminação em 1962, as piscinas em 68, o Pavilhão em 1973.

Em 1976, dá-se o fecho da maratona (o estádio fora construído na tradição, tão do agrado do Estado Novo, helénica, ou seja, aberto - à imagem do Estádio Nacional. A abertura verificava-se onde é hoje a arquibancada. Em 1986 o relvado é rebaixado aumentando a capacidade oficial para 80.000 espectadores. Esse número seria reduzido para os actuais 45.000 devido à colocação das cadeiras.

Entretanto, o novo projecto das Antas, obrigou a adquirir os restantes terrenos da antiga quinta de Salgueiros e o que começou por um sonho distante em 1933, está prestes a transformar-se numa nova cidade dentro da cidade. Todos sabemos que o Porto é uma nação : a partir de 2004, a capital é nas Antas.

Bibliografia:

CAMPANHÃ - Estudos monográficos
Miguel Ferreira Meireles, Agostinho Rodrigues
Junta de Freguesia de Campanhã, 1991

O PORTO EM 7 DIAS - Júlio Couto
Campo das Letras, 1997

TOPONíMIA PORTUENSE - Eugénio Andrea da Cunha e Freitas
Contemporânea Editora, 1999

HISTÓRIA DO PORTO - 2ª edição - Luis A. de Oliveira Ramos
Porto Editora, 1995

GUIA DE PORTUGAL, 4º volume
Fundação Calouste Gulbenkian, 3ª edição - 1994