Testemunhos sobre a cidade do Porto

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«Um bocadinho de Porto» (Júlia Guimarães, 28/09/02)

Há qualquer coisa de especial nesta cidade. Impossível de descrever. Vejo-a com lentes, daquelas que tornam grande uma coisa - para muitos - pequena.

É bela. E é também limitada, confinada em si, hoje amordaçada. É suja e pardacenta, com "lampiões (eternamente) tristes e sós". Gentes pouco polidas e com o seu quê de rude abundam nas ruas que são suas e ordem e planeamento parecem ser conceitos extra-galácticos. Aqui abunda a anarquia em todas as esquinas, em cada canto, em cada pedra.

Luxos, infra-estruturas e diversidade são coisas de outras cidades, mais capitais e capitalistas, idealizadas por alguém para serem cintilantes, cosmopolitas, carimbando tudo o mais que existe sob este sol sob o redutor rótulo do provincianismo, mero interesse paisagístico - de cores comparativamente muito mais pobres.

Há qualquer coisa de especial nesta cidade. E são também os seus reconhecidos defeitos que a tornam única, contribuindo para um inegável encanto, um mistério único e uma mística que insiste em prevalecer.

Muitos não sentem, não vêem. Mas nós, portuenses, somos ricos por o sermos. Na nossa diferença, na nossa identidade e independência. Numa personalidade fortemente vincada. No nosso ser invictos, num espírito fiel ao "antes quebrar que torcer". Nas nossas estórias e História de séculos altivos.

Somos portuenses, condição e qualidade de vida. Elevada ao quadrado quando se é igualmente portista. Reunir estes dois sentimentos, acreditem, torna-se um delírio! Por muito que tentem descentralizar, por muito que queiram desmistificar, o portismo é a principal religião, corrente de pensamento e filosofia desta urbe.

Distinguimo-nos naturalmente. Patriotas de uma Nação numa nação, que vive e brilha através do poder e fascínio de uma camisola com mais ou menos lycra®, com duas ou mais riscas... mas sempre azul e branca. Naqueles dias em que tudo se conjuga... Quando o sol se une à lua, quando longitude e latitude se encontram, neste meridiano, sentimo-nos entrar em patamares de perfeição e plenitude.

Sentimos que o divino existe.
Fazemos parte dele.