FC Porto

Ex-ciclistas e dirigentes da W52-FC Porto conhecem desfecho do caso ‘Prova Limpa’

Os 26 arguidos da operação ‘Prova Limpa’, incluindo os ex-ciclistas da W52-FC Porto, irão conhecer na terça-feira o veredito do julgamento sobre um caso de doping que abalou o ciclismo em Portugal.

O Ministério Público (MP) solicitou, em maio, penas suspensas para os arguidos, condicionadas ao pagamento de indemnizações à Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC), sustentando que ficaram provados “todos os factos e todos os crimes” descritos na acusação.

A 24 de abril de 2022, durante o Grande Prémio O Jogo, a Polícia Judiciária efetuou “várias dezenas de buscas domiciliárias e não domiciliárias em diversas regiões do território nacional”, com cerca de 120 elementos e direcionadas sobretudo às residências dos ciclistas e dos responsáveis da W52-FC Porto.

No decurso da operação ‘Prova Limpa’ foram apreendidas várias centenas de seringas e agulhas de diferentes tipos, material para transfusão sanguínea, bolsas usadas com vestígios hemáticos e substâncias dopantes como betametasona, somatropina, menotropina, TB 500, insulina ou Aicar, entre outras.

Dos 26 arguidos, todos respondem por tráfico de substâncias e métodos proibidos, sendo que apenas 14 enfrentam também acusação por administração de substâncias e métodos proibidos.

Entre os visados constam Adriano Teixeira de Sousa, conhecido por Adriano Quintanilha, a Associação Calvário Várzea Clube De Ciclismo – clube de onde emergiu a equipa -, o então diretor desportivo Nuno Ribeiro e o seu ‘adjunto’ José Rodrigues.

Nas alegações finais, num julgamento que começou em fevereiro de 2024, o procurador atribuiu graus diversos de responsabilidade e apontou Quintanilha, Ribeiro e Hugo Veloso, contabilista da equipa, como “os principais mentores e responsáveis” pelo esquema de doping na W52-FC Porto.

Em tribunal, o antigo diretor desportivo e o proprietário da equipa apresentaram versões contraditórias, com Ribeiro a admitir a existência de dopagem, alegadamente financiada e incentivada por Adriano Quintanilha, “mestre da manipulação, que queria ganhar a todo o custo”.

O vencedor da Volta a Portugal de 2003 declarou que Quintanilha era quem financiava a prática, entregando dinheiro aos ciclistas para adquirirem os produtos ilícitos, uma alegação que o proprietário da W52-FC Porto negou.

O procurador reconheceu que a maior dificuldade no processo reside na determinação das penas aplicáveis, que abrangem também farmacêuticos que forneciam as substâncias, e defendeu que, apesar da gravidade dos delitos, por serem arguidos primários estes “não devem cumprir pena efetiva”.

João Rodrigues, Rui Vinhas, Ricardo Mestre, Samuel Caldeira, Daniel Mestre, José Neves, Ricardo Vilela, Joni Brandão, José Gonçalves e Jorge Magalhães são alguns dos ex-ciclistas da W52-FC Porto julgados por tráfico de substâncias e métodos proibidos, tal como Daniel Freitas, que representou a equipa entre 2016 e 2018.

Com este esquema, o ciclismo morreu. Foi um escândalo tão grande e tão avassalador

Declaração do Magistrado do MP nas alegações finais

A maioria destes ciclistas, incluindo Rodrigues, Vinhas e Mestre – três antigos vencedores da Volta a Portugal – admitiu em tribunal recorrer a substâncias dopantes e a realizar transfusões sanguíneas a partir de 2020, referindo que a dopagem estava generalizada no ciclismo nacional.

“Com este esquema, o ciclismo morreu. Foi um escândalo tão grande e tão avassalador”, declarou o magistrado do MP nas alegações finais.

A W52-FC Porto era a principal equipa do pelotão nacional, vencendo sucessivamente a Volta a Portugal entre 2016 e 2021. Contudo, as edições de 2017 e 2018, ganhas por Raúl Alarcón, e 2021, conquistada por Amaro Antunes, ficaram posteriormente sem vencedor devido às suspensões por doping aplicadas a esses ciclistas em resultado de anomalias no passaporte biológico.