Há um ponto recorrente no debate em torno do Farioli que vale a pena analisar com algum distanciamento. Ao longo da época foi várias vezes criticado por “defender resultados curtos”. O exemplo mais apontado foi o jogo em casa com o Sporting, em que protegemos o 1-0 e acabámos por sofrer o 1-1 nos descontos. A crítica era clara: devia ter procurado o segundo golo para matar o jogo. Ontem, na Luz, aconteceu precisamente o contrário. A equipa estava a ganhar 0-2 e, em vez de baixar linhas e gerir o resultado de forma conservadora, continuou a procurar o terceiro golo. O Benfica acabou por chegar ao 2-2 perto do final e as críticas surgiram novamente, desta vez por não ter “fechado o jogo”. Não é necessariamente o mesmo grupo de pessoas a fazer ambas as críticas mas o que esta dinâmica expõe é algo importante: muitas destas análises são fortemente moldadas pelo resultado final. São observações feitas com o jogo já terminado, quando já se sabe o desfecho. Esse é um luxo que quem toma decisões durante o jogo simplesmente não tem. As decisões de um treinador são tomadas em tempo real, com informação incompleta, sob pressão e num contexto competitivo em constante mudança. Avaliá-las exclusivamente à luz do resultado final ignora completamente o momento em que elas têm efetivamente de ser tomadas.
Existe também outro problema de fundo neste tipo de crítica pois revela uma certa dificuldade em aceitar a natureza do próprio desporto competitivo. No futebol, como em qualquer modalidade, ganha-se, perde-se e empata-se. Não há resultados garantidos, nem decisões que eliminem completamente o risco. Procurar o 3-0 pode expor a equipa. Defender o 1-0 pode convidar à pressão adversária. Qualquer escolha tem vantagens e riscos associados. Por isso, reduzir a análise a “devia ter defendido” ou “devia ter atacado” simplifica demasiado uma realidade muito mais complexa. Avaliar uma equipa exige olhar para o plano de jogo, o comportamento coletivo, o contexto do adversário, o estado físico dos jogadores, o momento da competição e as dinâmicas que se desenvolvem ao longo da partida. O futebol raramente se explica por uma única decisão isolada. É um processo feito de probabilidades, contexto e execução.
No caso concreto de ontem, diria até que o problema esteve muito menos no plano estratégico do que na execução no último terço. Em termos de organização coletiva e de comportamento da equipa, o jogo foi preparado e interpretado de forma muito competente. O que faltou foi capacidade de decisão nos momentos finais das jogadas. Houve várias situações em que o último passe, o último remate ou a escolha final foram claramente deficientes, impedindo a equipa de matar o jogo quando teve oportunidades para isso. Nesse sentido, o lance do Oskar não deve ser visto necessariamente como uma exceção irrepetível. Se o ataque for reforçado de forma condizente, algo que parece bastante evidente que será uma prioridade no próximo verão, é perfeitamente plausível que esse tipo de situações passe a ter outro desfecho. Convém também lembrar que no verão passado foi necessário reformular praticamente todo o plantel, algo que naturalmente limita aquilo que é possível resolver de uma só vez.
Deixo também uma nota mais pessoal. Em agosto fomos ganhar a Alvalade por 1-2 num jogo em que, honestamente, não fomos tão superiores como fomos ontem na Luz. E isso aconteceu frente a um Sporting que ainda não estava ao nível competitivo a que chegou entretanto, enquanto ontem defrontámos um Benfica que está provavelmente no melhor momento da época. Esta constatação, para mim, serve sobretudo para valorizar o que a equipa tem feito, o que tem vindo a construir e aquilo que ainda pode fazer no futuro próximo. Ontem doeu termos deixado escapar o segundo pré-match point no campeonato, isso é inegável. Mas parece-me muito mais produtivo reconhecer os méritos do trabalho que está a ser feito do que concentrar toda a análise num foco excessivo, e muitas vezes injusto, sobre aquilo que correu mal.