Nas redes sociais, onde aparentemente ninguém tem dúvidas e é tudo visto de forma maniqueísta, parece uma incompatibilidade considerar que Nicolás Maduro é um ditador sanguinário que despreza o seu povo e o condena à mais cruel miséria e, ao mesmo tempo, condenar veementemente a grotesca violação do direito internacional dos Estados Unidos ao invadir a Venezuela e capturar o seu, ainda que ilegítimo, presidente. Eu não vejo nenhuma contradição nessas ideias e, como não sou venezuelano, confesso estar principalmente preocupado com o ato perpetrado por Donald Trump. Será que isto dará ideias a outras potências menos alinhadas com o Ocidente de embarcar em aventuras idênticas (invasão da China a Taiwan, mais combustível à visão imperialista russa)? Será que isto entusiasma Donald Trump a cumprir o que tem dito quanto à Gronelândia? E depois? O multilateralismo morre definitivamente e voltamos à corrida ao armamento e à era dos impérios?
Quanto ao futuro da Venezuela, ainda há muitas indefinições. É absolutamente cristalina a motivação de Donald Trump. Não se tratou de libertar o povo venezuelano e o narcotráfico também foi um pretexto. O interesse é controlar as maiores reservas de petróleo do mundo - provavelmente não porque precisem delas, mas porque querem impedir as ligações à China e à Rússia. No fundo, a ideia não é mudar a índole do regime, mas sim mudar o alinhamento geopolítico do regime. É provável que daí resulte uma melhoria da qualidade de vida dos venezuelanos, mas assumo as minhas mais sérias dúvidas sobre isso, até porque é ingénuo acreditar que capturar o ditador resulte em mudança de regime. Imagine-se que, por hipótese, Nicolás Maduro tinha tido um acidente ou um problema de saúde fatal. Alguém acredita que isso levaria a uma mudança de regime? As ditaduras tendem a sobreviver, em última análise, à custa da força, isto é, das armas. O desaparecimento do ditador sem enfraquecer ou controlar/corromper as forças armadas dificilmente leva a mudanças de regime. Ou os EUA têm um acordo com as forças armadas venezuelanas e o mais provável é assistirmos a um regime fantoche dos EUA, ainda que provavelmente tenha uma visão económica antagónica, isto é, em vez de ditadura comunista será uma ditadura capitalista, ou não existe qualquer acordo e dificilmente o regime cairá sem lutar - isto é, sem guerra.
É certo que a maioria dos venezuelanos estará contente; tudo, até mesmo a indefinição, é preferível à miséria, mas, para o resto do mundo, isto representa mais um passo na normalização do uso da força.