O que temos são adeptos com microfone. E pior do que isso, avençados com microfone.
Basta ligar a televisão. Aquele comentador que aparece todos os dias a defender o Regime? Avençado do Regime. Aquele que nunca deixa passar uma ao Esportiva? Avençado do Esportiva. Ninguém declara nada, ninguém assume nada, mas toda a gente sabe. É o segredo mais público de Portugal.
E depois há os outros. Os que não recebem de ninguém mas perceberam que em Portugal há um atalho para a relevância, bater no FC Porto. A comunicação social portuguesa está dominada por Lisboa. E em Lisboa, criticar o Porto não tem custo nenhum, pelo contrário, abre portas, dá likes, garante convites para programas. É a forma mais fácil de entrar no circulo e lá ficar.
Não precisam de ser avençados. Precisam apenas de perceber de que lado o vento sopra.
O resultado é o mesmo, jornalismo ao serviço de interesses, seja por dinheiro seja por conveniência. A diferença é que uns recebem para falar, e os outros falam para um dia receber.
O futebol já passou para segundo plano há muito. O que interessa não é o que acontece em campo. Interessa a guerra de narrativas fora dele. Intoxicar a opinião pública, criar confusão, desviar atenções.
Para perceber como funciona isto basta olhar para alguns casos concretos. O Marega foi alvo de racismo dentro de um estádio português, em pleno século XXI, e a comunicação social conseguiu a proeza de transformar a vítima em problema. Em vez de condenação unânime, o debate virou-se para o comportamento do jogador ao sair do campo. O racismo foi lavado, varrido para debaixo do tapete, e seguiu-se em frente.
Depois veio a campanha contra o Taremi. Um jogador que chegou ao FC Porto, fez época após época de alto nível, e foi alvo de uma narrativa construída tijolo a tijolo para o diminuir, questionar e desgastar.
O caso Prestianni foi outro exemplo. Um jogador envolvido em incidentes que noutro clube teriam gerado semanas de debate nacional. No Benfica, passou. A comunicação social tentou até descredibilizar um ato de racismo evidente. Dois pesos, duas medidas, como sempre.
E houve casos ainda mais graves, envolvendo acusações sérias sobre figuras ligadas a clubes de Lisboa, que simplesmente desapareceram do radar mediático em dias.
Mas esta situação de parcialidade já a conheço desde os "Donos da Bola" na SIC, penso é que está cada vez a ficar mais agravada e generalizada.