http://www.spiegel.de/international/world/kylian-mbappe-it-s-raining-money-for-this-football-wunderkind-a-1237087.htmlReal aceitou pagar 214M por Mbappé em 2017. Jogador pediu um conjunto de extras extravagantes.
Doping financeiro: como a Gazprom fez batota para financiar o clube de Putin
A UEFA escondeu como a Rússia fez doping financeiro com os seus clubes de futebol, numa violação clara das regras de “fair play” financeira. Empresas estatais russas controladas pelo governo de Vladimir Putin gastaram mais de 1500 milhões de euros em quatro equipas de topo, incluindo o Zenit e o Lokomotiv
Numa manhã fria de novembro em Nyon, na Suíça, na sala Ebbe Schwartz da Casa do Futebol Europeu, sede da UEFA, cerca de duas dúzias de homens estão reunidos para discutir o mercado de futebol da Rússia.
São figuras de primeira linha do Comité de Controlo Financeiro de Clubes (CFCB) da UEFA, da Federação Russa de Futebol, e daquele que é sem dúvida o maior clube da Rússia, a equipa favorita do presidente Putin, o FC Zenit de São Petersburgo.
A reunião foi pedida por Jean-Luc Deheane, ex-primeiro ministro da Bélgica e investigador-chefe da Câmara de Investigação do CFCB da UEFA, que nos últimos meses liderou uma investigação sobre as finanças do Zenit e, em particular, sobre a natureza dos acordos de patrocínio que tem com com a sua empresa proprietária, a Gazprom.
Ao contrário de quase todos os outros clubes que competem no futebol europeu, o Zenit, uma das equipas de maior sucesso na Premier League russa, é propriedade de um gigante financeiro. A Gazprom é a empresa estatal de energia da Rússia e tem receitas anuais de mais de 100 mil milhões de euros. Isso dá ao Zenit acesso a dinheiro quase ilimitado.
Nessa terça-feira de 12 de novembro de 2013, o diretor-geral e os diretores executivo e financeiro do Zenit, acompanhados do seu responsável pelo planeamento estratégico, estão a justificar por que motivo a Gazprom injetou 113 milhões de euros nos cofres do clube em 2012, em clara violação das regras de Fair Play financeiro (FFP) da UEFA. Estes regulamentos impõem limites nos gastos dos clubes, nas suas dívidas e nas ajudas que podem receber dos seus acionistas.
Os argumentos apresentados à UEFA pelo Zenit são simples: na Rússia, a população é pobre e a liga local de futebol não tem a capacidade de gerar as receitas das ligas de outros países europeus. Além disso, a infraestrutura técnica e digital no país é fraca e a pirataria digital abunda sem controlo. A intervenção do Estado é inevitável, garantem os diretores do clube.
“Se os clubes [da primeira liga russa] cumprirem os requisitos do FFP agora”, dizem os homens do Zenit aos investigadores da UEFA, serão forçados a vender os seus melhores jogadores. Isso irá reduzir a “competitividade dos clubes na arena europeia” e os russos começarão a afastar-se do futebol, virando-se para o hóquei no gelo.
O Zenit deixa então um aviso ameaçador: "Todas essas consequências negativas iriam acontecer na véspera do Campeonato do Mundo de 2018", na Rússia.
A ameaça de perturbação do Mundial parece ter resultado na UEFA. Seis meses depois, em maio de 2014, a Câmara de Investigação do CFCB resolveu o caso contra o Zenit através de um acordo secreto que permitiu ao clube evitar ser suspenso da Liga dos Campeões.
O tratamento preferencial ao Zenit não ficou por aí. A UEFA escondeu do público qualquer referência que pudesse haver relacionada com a enorme operação de “dopagem financeira” do Zenit com a Gazprom, cuja subsidiária alemã é uma das marcas patrocinadoras da Liga dos Campeões — um torneio da UEFA.
O Zenit não é caso único na Rússia.
Uma investigação do The Black Sea e da rede EIC (European Investigative Collaborations), baseada em novos documentos do Football Leaks partilhados pela revista alemã Der Spiegel, revela que o comité de controlo financeiro da UEFA encobriu esquemas similares no FC Lokomotiv de Moscovo (adversário do FC Porto na Champions) e no Rubin Kazan, clubes também controlados pelo Estado, e reteve informações sobre um terceiro caso, relacionado com o FC Dínamo de Moscovo.
A escala do doping financeiro — um termo usado para descrever as vantagens injustas obtidas por clubes com donos ricos dispostos a gastar dinheiro — está longe de ser pequena. Os documentos analisados pelo The Black Sea mostram que nos últimos cinco anos, desde a introdução das regras de fair play financeiro pela UEFA, o Estado russo distribuiu mais de 1,65 mil milhões de euros pelo Zenit, pelo Lokomotiv e e pelo Dínamo, através de acordos de patrocínio desonestos. E essa prática continua até hoje.