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A Celebração não é o Problema
Ontem à noite não consegui ficar indiferente. Fiquei com raiva. Fiquei triste. E depois fiquei a pensar. Porquê? porque já vimos isto tantas vezes e continuamos aqui, a ter a mesma conversa.
Celebrar um golo é emoção pura. É o momento em que um jogador para de ser profissional e volta a ser criança, aquela que sonhou com aquilo durante anos. É o coração do futebol. Sempre foi.
Por isso não percebo genuinamente não percebo como é que a celebração de Vinícius se tornou uma controvérsia. A sua alegria incomoda mais pessoas do que os insultos que recebe. Isso diz tudo sobre o problema, e nada sobre ele.
Sim, joga no mais alto nível. Sim, cada toque é analisado, cada reação é filmada, cada decisão é julgada. Isso faz parte. Quem actua no maior palco do mundo sabe disso e aceita. Vinícius também aceita.
Mas racismo não é crítica. Não é análise táctica. Não é exigência desportiva. É veneno. É uma falha de carácter tão fundamental que não merece debate merece condenação imediata, sem asteriscos, sem “mas”, sem contexto que a suavize.
Há uma diferença enorme entre questionar a disciplina táctica de um jogador e atacar quem ele é como pessoa. Parece óbvio. E no entanto aqui estamos.
O que acontece com Vinícius não é acidente. Quanto mais expressivo é um jogador, mais visível se torna. E há quem não aguente ver um jovem negro, confiante, dominante, no maior palco da Europa sem pedir desculpa por isso. A sua alegria é insuportável para algumas pessoas precisamente porque é genuína e porque ele não a esconde.
O que muita gente não percebe é que jogadores que enfrentam este tipo de resistência desenvolvem uma força mental que os outros raramente constroem. Vinícius já não se encolhe. Já não baixa a cabeça. E isso isso especificamente parece ser o que mais irrita quem o insulta.
Esta discussão vai muito além de um jogador ou de um clube. Defender Vinícius não é proteger uma estrela do Real Madrid. É proteger a integridade do jogo. É dizer que o futebol pode ser intenso, apaixonado, feroz mas nunca desumano.
Não importa a camisola. Não importa o estádio. Não importa de que lado estás quando o árbitro apita.
Devia importar ser melhor do que isto.
E ontem, mais uma vez, houve um Clube que não foi.