Em termos de futebol jogado, aprecio muito mais que ganhe uma equipa como o PSG do que uma equipa como o Arsenal.
Mas é-me complicado dissociar o futebol praticado da conjuntura e do ecossistema competitivo que rodeia o PSG e que o Arsenal não partilha.
O PSG joga numa liga que, o mais tardar em março, costuma estar praticamente decidida. Tem ainda uma estrutura competitiva que chegou ao ponto de aceitar adiar um jogo frente ao segundo classificado para beneficiar a preparação europeia do PSG, sem grande preocupação com o impacto que isso teria na integridade da competição doméstica. O Lens viu as suas pretensões prejudicadas por uma decisão que, quando o jogo acabou por ser realizado, já tinha perdido grande parte da relevância competitiva. Fruto deste contexto, o PSG consegue terminar temporadas com os seus jogadores nucleares a acumularem muito menos minutos do que os principais rivais europeus. Os jogadores essenciais da equipa chegam às fases decisivas muito mais frescos do que aqueles que competem semanalmente em campeonatos de intensidade superior.
Do outro lado, o Arsenal consegue fazer uma Champions inteira sem derrotas, chegar à final, levar a decisão até aos penáltis e, simultaneamente, lutar até ao fim pelo título no campeonato mais competitivo do mundo, acabando por o conquistar.
Há ainda a questão financeira. O PSG pode gastar centenas de milhões em jogadores que acabam por não corresponder às expectativas sem que isso tenha consequências significativas na sua capacidade de investimento futuro. O Arsenal, pelo contrário, passou anos condicionado pela construção de um estádio cujo custo final praticamente duplicou face ao orçamento inicial, limitando durante muito tempo a sua capacidade de competir financeiramente com os principais rivais. Mesmo o investimento mais agressivo dos últimos anos dificilmente se compara ao do PSG. Basta olhar para os valores médios pagos pelos jogadores que estiveram em campo hoje.
Portanto, mesmo gostando muito mais do futebol do PSG e do trabalho do Luís Enrique, tenho dificuldade em olhar para esta conquista exclusivamente pelo prisma do jogo. O futebol não existe num vácuo. Os méritos desportivos são reais, mas também são potenciados por condições competitivas, financeiras e estruturais que poucos clubes no mundo podem sequer sonhar ter.
E tudo isto sem falar do proprietário do clube, o Qatar Sports Investments, um veículo de investimento controlado pelo Estado do Catar. Um Estado frequentemente criticado por organizações internacionais devido às condições de trabalho dos trabalhadores migrantes, às limitações das liberdades civis e políticas, à discriminação de pessoas LGBTQ+ e à utilização do desporto como ferramenta de projeção e reputação internacional. São questões que, para mim, também fazem parte do contexto quando se avalia o significado de uma vitória desta dimensão.