Alguns de nós vivem o Futebol Clube do Porto há tempo suficiente para perceber que unanimismos são tão críveis quanto unicórnios.
Os mais antigos lembrar-se-ão daquilo que representou Fernando Gomes, o nosso 'bibota', no passado. Foi o judas, o traidor e encarado a certa altura como a única figura passível de fazer frente ao Presidente dos Presidentes. Felizmente, este sentimento de animosidade e divisionismo apaziguou-se e o bibota é e será sempre um dos símbolos máximos do nosso clube.
Alguns outros, sobretudo os militantes deste fórum, poderão lembrar-se da sigla ALB.
O homem que nos fez sonhar, que enterrou Jesus no Dragão, que fez chover de baixo para cima, que conquistou um campeonato imaculado, que nos trouxe de volta a glória europeia, trocava a cadeira de sonho por um saco de libras. Foram anos até reconquistar o coração dos portistas. O comeback foi tão forte que esse tal de Libras Boas esmagou, nas urnas, com o voto democrático, o Presidente mais titulado de sempre.
O Futebol Clube do Porto deve estar grato e reconhecer todos aqueles que defenderam as nossas cores, sobretudo aqueles que tiveram sucesso, como Pinto da Costa, José Maria Pedroto, Artur Jorge, João Pinto, Fernando Gomes, Jorge Costa, José Mourinho, Bobby Robson, Ivic, Jesualdo Ferreira, André Villas Boas e tantos, tantos outros.
O Sérgio Conceição merece estar nesse lote.
Pegou numa equipa falida, destroçada e trouxe-nos de volta o título de campeões. Numa conjuntura dificílima, onde nem os plantéis mais abastados, como os de Lopetegui e NES conseguiram superar o manto protector que hoje se sabe que existia (e como existia!!).
A conjuntura era tão favorável, que o agora proto-salvador das galinhas recusou o convite para treinar o melhor de Portugal.
O trajeto como treinador está longe de ser 100% vitorioso, mas também não desonra ou deslustra.
Tivemos desaires, tivemos títulos, batemos recordes, fizemos prestações europeias decentes.
Não é no pré-eleição que critico o SC.
No meu entender, acho que tinha toda a legitimidade em apoiar a candidatura de PdC. Aliás, acho que o deveria ter feito mais cedo.
O que critico fortemente é o assinar do contrato antes de conhecer o desfecho das eleições e não colocar o lugar à disposição imediatamente a seguir à final da Taça de Portugal. São duas manchas, dois borrões que sujam - e muito - a imagem que o próprio SC quis construir.
O que espero é que, como a maior parte das nódoas, o tempo entretanto se encarregue de lavar o lixo, deixando o que realmente importa.
Quanto à entrevista em si, e fazendo um exercício de especulação:
- se SC se quiser posicionar como alternativa futura à presidência do Futebol Clube do Porto (acho que isso é mais vontade das viúvas de PdC, do que do próprio), isso significaria abdicar de todo e qualquer capital para treinar em Portugal, e aqui incluo a seleção.
- para ser sequer equacionável uma alternativa a AVB, as coisas têm de correr mal. Nesse aspecto, o timing não podia ser "pior". Estamos em lua de mel.
- o posicionamento para selecionador parece-me interessante; e provavelmente para o SC, tanto do ponto de vista do prestígio, como do ponto de vista remuneratório. E mil vezes melhor que a cavalgadura do JJ.
Resumindo:
Muito obrigado ao SC pelo seu passado no Porto. Impossível fazer parte do presente. Muito difícil fazer parte do futuro.
Estamos muito bem servidos de presidente e de treinador.