Mais a frio.
O que vou dizer não é novidade mas este Porto deu um click mental no que toca à organização defensiva. Parece que andam de cabeça levantada a ver onde há linhas de passe para cortar e quem está ou não está nas sobras e há jogadores a correr para pressionar em que parece que o estão a fazer não por obrigação mas pelo gosto do confronto. Não se trata apenas de aplicar mais esforço por aplicar mais esforço. Há um brio e um orgulho em fazer deste Porto uma fortaleza. Este jogo foi mais um perfeito exemplo disto.
Este sentimento de que são um fortaleza defensiva está tão presente e é tão forte que faz com que o Porto não sinta uma particular necessidade de arriscar passes para acelerar o processo ofensivo ou sinta a necessidade de "pegar no jogo" a todo o custo porque um golo bastará. Isto transmite simultaneamente uma serenidade que é útil para tomar melhores decisões mas simultaneamente transmite algum "laissez faire" ofensivo que não dá a sensação de um Porto "mandão" e imponente. Confesso que me causa alguma estranheza de não ver um ataque mais fulgurante mas a esse respeito os jogadores que vieram do banco hoje deram-me alguma esperança que se consiga juntar o útil (grande defesa) ao agradável (grande ataque).
Mora, William e Oskar ainda não estão no "ponto de rebuçado". Agora imaginem o seguinte, imaginem que estes 3 passam a ser a sua melhor versão ofensiva em 90% dos jogos. Como seria esse Porto com a defesa de betão armado que tem com esses 3 "a bombar"? Deixo a questão no ar...
Referes que te causa alguma estranheza não haver um ataque mais fulgurante, e é verdade, não estamos habituados a um modelo de jogo tão conservador.
O modelo de jogo de Francesco Farioli é, acima de tudo, uma lição de equilíbrio. O ataque posicional da sua equipa lembra a postura de um lutador de judo: cada movimento é calculado, cada avanço é consciente, e a prioridade máxima é nunca perder os apoios que sustentam toda a estrutura. Tal como um judoca que tenta derrubar o adversário sem se expor, a equipa de Farioli constrói o seu jogo ofensivo de forma metódica, preservando sempre a integridade defensiva.
Isto significa que, no caso de perda de bola, a transição para a fase defensiva é executada de forma mais fácil, organizada e eficiente, reduzindo significativamente os riscos de contra-ataque.
É verdade que esta abordagem pode limitar a capacidade de explorar os espaços na defesa adversária, sobretudo em situações de marcação individual, onde maior liberdade de movimentos poderia gerar situações mais imprevisíveis e potencialmente perigosas. O chamado “caos posicional” no ataque pode ser uma ferramenta eficaz para desorganizar o bloco defensivo adversário, mas, ao mesmo tempo, aumenta o risco de descoordenação quando a equipa perde a bola, dificultando uma rápida reorganização defensiva e expondo vulnerabilidades ao contra-ataque.
O modelo de Farioli é pensado para ser anti contra-golpe. A sua rigidez posicional e a previsibilidade do ataque organizado, que por vezes pode parecer repetitiva ou até monotona, não são fraquezas, mas sim escolhas conscientes. A prioridade é preservar o equilíbrio defensivo da equipa em todas as fases do jogo, minimizando riscos e garantindo que cada jogador saiba exatamente onde se posicionar, tanto no ataque quanto na transição defensiva.
O conservadorismo de Farioli não é falta de ambição, mas sim uma estratégia consciente: proteger o equilíbrio da equipa em todos os momentos, transformar o ataque num instrumento de controle e minimizar riscos em nome da solidez.
No fundo, o futebol de Farioli é um judo aplicado ao relvado: mover-se com propósito, atacar com consciência e nunca sacrificar a estabilidade em nome da ousadia. É um futebol que pensa antes de agir, que privilegia a segurança sobre o espetáculo e que, paradoxalmente, encontra na disciplina e na repetição o caminho mais seguro para o sucesso.