( Meu post no Substack)
O estrebuchar em direto
Há uma coisa curiosa a acontecer nas televisões portuguesas. Comentadores que passaram anos a fazer de extensão mediática do Sport Lisboa e Benfica, a construir narrativas cuidadas, com silêncios estratégicos e indignações à medida… estão agora a perder o controlo em direto. E não é de forma subtil. É à vista de todos.
O sinal de que alguém já não manda na situação não é quando levanta a voz. É quando deixa de se importar que está a ser visto a perder a compostura.
Durante muito tempo, esta agenda funcionou com uma elegância de fachada. Havia critérios que surgiam e desapareciam conforme o resultado do fim de semana. Havia escândalos que enchiam painéis inteiros e outros que simplesmente não existiam. Quando o problema era dos outros, havia horas de análise. Quando era em casa, de repente faltava contexto, faltavam provas, faltava tudo.
Este tipo de construção só funciona enquanto o contexto ajuda. Quando deixa de ajudar, a narrativa fica suspensa no ar… e quem a repetia semana após semana fica exposto.
É isso que está a acontecer agora. O caso de Vinícius Júnior rebentou. E muitos dos comentadores que passam a vida a exigir mão pesada para tudo o que mexe fora da Luz ficaram, de repente, sem saber onde pôr as mãos. O resultado foi este espetáculo constrangedor de gestão de danos em direto. Minimizar. Desviar. Relativizar. Questionar a vítima. Tudo menos enfrentar o que estava à frente deles.
E aqui já não estamos a falar de clubismo inofensivo. Estamos a falar de gente que prefere proteger a marca Benfica do que condenar um episódio de racismo sem rodeios.
O estrebuchar não é dramático. É pior. É automático. Uma contradição que antes passaria por distração hoje soa a confissão. Um silêncio que antes parecia prudência agora parece cumplicidade. A linguagem corporal já desmente aquilo que a boca tenta salvar.
O mais revelador nem é a ausência de autocrítica. Essa nunca existiu. É a ausência de instinto. Um comentador minimamente preocupado com a própria credibilidade recalibrava. Mudava de registo. Separava o clube do princípio básico de que o racismo não se relativiza. O que vimos foi o contrário. Gente a repetir o mesmo guião gasto porque não tem outro.
E há qualquer coisa de profundamente embaraçoso nisto. Profissionais de comunicação que perderam qualquer noção de como estão a ser vistos. Como se o monitor tivesse desligado… e continuassem a atuar para ele.
O público já não precisa de adivinhar. Nem de ler nas entrelinhas.
Basta ligar a televisão.
Eles tratam do resto.