Há empates que sabem a empate.
E há empates que sabem a derrota.
O que aconteceu ontem na Luz pertence claramente à segunda categoria. Não porque o Benfica tenha sido superior durante todo o jogo, não porque fomos esmagados, não porque fomos incapazes de competir. Nada disso. O que deixa um sabor tão amargo é perceber que, mais uma vez, **perdemos pontos por demérito nosso**.
E isso já tinha acontecido há pouco tempo.
Contra o Sporting, um penálti, no mínimo idiota, no último segundo tirou-nos dois pontos que pareciam seguros. Na altura escrevi aqui algo que continuo a acreditar: o problema não foi o erro em si. O penálti foi um lance. No futebol, erros acontecem. O verdadeiro teste é sempre a forma como reagimos depois.
Mas há uma diferença grande entre cometer um erro… e insistir nele.
O caso de Moura acaba por simbolizar um pouco isso. Na altura, achei exagerado o ataque que lhe fizeram. Um jogador jovem não pode ser crucificado por um lance. O futebol está cheio de erros decisivos, até dos maiores. Mas também é verdade que há coisas que o adepto vê… e espera que quem está dentro veja ainda melhor.
Nem sempre o talento se mede apenas no pé. Muitas vezes mede-se na cabeça. Na forma como se lida com pressão, com contexto, com responsabilidade. E a verdade é que, neste momento, é difícil defender que o Moura tenha condições para continuar a vestir a camisola do FC Porto. Não digo isto com prazer, nem com vontade de apontar culpados fáceis. Digo-o porque o futebol também exige lucidez e clareza.
E é aqui que entra algo que me custa bastante a entender.
Temos um treinador que, em muitas situações, demonstra um pragmatismo absoluto. Basta ver a forma como gere jogadores com cartão amarelo: quase sempre ele opta por substitui-los, estejam a fazer um grande jogo ou não. É uma gestão de risco clara, quase mecânica, que faz parte da forma como ele olha para o futebol. Confesso que nem sempre concordo com este tipo de padrão rígido, porque para mim o jogo também vive de contexto e de momentos, mas consigo compreender a lógica e, acima de tudo, respeitá-la.
Mas depois surgem decisões que parecem fugir a essa mesma lógica.
Se já vimos o treinador colocar Kiwior à esquerda para permitir que Thiago Silva fosse titular no centro da defesa, então é legítimo perguntar: numa fase tão decisiva do campeonato, porque se assume um risco destes? Porque se insiste em colocar Moura numa situação que já tinha dado sinais claros de fragilidade?
Onde ficou o pragmatismo que tantas vezes vimos noutras decisões? Porque aqui pareceu surgir outra lógica, quase como se houvesse a necessidade de demonstrar que o elo mais fraco tem de ser protegido a todo o custo.
E confesso que isto às vezes me faz lembrar um fenómeno que vemos cada vez mais fora do futebol: uma pressão social crescente para que determinadas ideias sejam aceites quase por obrigação, como se apoiar minorias ou quem está mais frágil tivesse de acontecer independentemente do contexto ou das consequências. Eu percebo a intenção, e em outras situações, até podia concordar com o principio de que ninguém deve ser abandonado, mas há momentos em que essa lógica simplesmente não faz sentido.
Num clube como o FC Porto, proteger um jogador não pode significar expor a equipa inteira. E muito menos fazê-lo num momento que pode decidir um campeonato. Basta olhar para o resultado final e perguntar algo simples: alguém acredita que o Moura saiu reforçado do jogo de ontem?
No Porto sempre houve uma regra clara. Aqui não podem existir quotas e muito menos lugares protegidos. Aqui joga quem está preparado, quem aguenta a pressão e quem demonstra competência. Sempre foi assim que o clube construiu a sua identidade.
Não é uma crítica feita de raiva. É uma dúvida sincera. Porque são decisões assim que acabam por influenciar momentos que podem decidir uma época inteira.
E é isso que mais custa neste momento.
Podíamos estar aqui hoje a falar de um campeonato praticamente fechado. Podíamos estar a celebrar um passo gigantesco rumo ao título. Em vez disso, demos algo que os nossos adversários não tinham: **esperança**.
Eles ganham motivação. Nós perdemos tranquilidade.
E isso acontece com uma equipa que continua a ser… difícil de explicar.
Este Porto não joga mal. Mas também não joga bem. Há momentos em que vemos qualidade clara, jogadores com capacidade, ideias que fazem sentido. E depois, de repente, parece que a bola pesa. Como se queimasse nos pés dos jogadores. Como se a confiança tivesse desaparecido, ou que a vontade de jogar tivesse desaparecido. Não acredito que seja falta de qualidade, porque muitos destes jogadores já demonstraram o contrário. Por isso mesmo é que tudo isto se torna ainda mais estranho…. Mas isso fica para outro texto.
Mas nem tudo foi negativo ontem.
Há jogadores que continuam a fazer um trabalho ingrato e pouco reconhecido. Pepê é um deles. Para muitos adeptos continua a ser um patinho feio, mas quem olha para o jogo com atenção percebe a importância do que ele faz sem bola. Posicionamento, coberturas, cortes em jogadas perigosíssimas… em praticamente todos os jogos há duas ou três situações em que ele aparece para fechar um lance que podia perfeitamente acabar em golo.
E aqui está um dos grandes paradoxos do futebol: quando alguém marca um golo, toda a gente celebra algo concreto, visível, indiscutível. Mas quando um jogador faz um corte destes, ninguém sabe se dali nasceria realmente um golo adversário. O mérito fica invisível. Não há replay emocional para festejar o que não aconteceu.
E quando esse jogador é um avançado, a injustiça ainda é maior. Porque se não marca, rapidamente surgem críticas. Muitos dos que criticam nem param para pensar se aquele jogador está a cumprir exatamente aquilo que o treinador lhe pede, ou se é peça importante na forma como a equipa se organiza sem bola. Esse tipo de trabalho raramente aparece nos resumos, mas muitas vezes é ele que evita problemas muito maiores.
E depois ainda tem outro ponto do jogo de ontem que tenho que trazer aqui, porque se trata de um momento que faz-nos lembrar porque é que o futebol é magico e move multidões.
O golo do “miúdo” Oskar é um desses momentos. Não é apenas a execução técnica. É o contexto: Estádio adversário, mais de 60 mil pessoas nas bancadas, um jogo que podia encaminhar o campeonato, frente a um defesa campeão do mundo e capitão do eterno rival. E mesmo assim ele arrisca. Arrisca fazer algo que muitos ali talvez já não tivessem a coragem de tentar.
E isso também nos obriga a lembrar que esta equipa começou o campeonato com essa mesma coragem. Havia jogadores a arriscar, a assumir o jogo, a tentar coisas diferentes, e dessa ousadia nasceram boas jogadas e alguns golos muito bonitos. Mas com o passar das jornadas essa irreverência parece ter desaparecido. Como se a pressão do momento, ou talvez alguma orientação vinda de fora do campo, tivesse ido roubando confiança semana após semana.
Por isso o gesto do Oskar diz mais do que apenas um golo bonito. Mostra que a vontade e coragem de ser melhor, é recompensada. A pergunta agora é outra: essa coragem vai crescer dentro da equipa… ou daqui a uns meses estaremos a falar dele como hoje falamos de Borja ou de William, jogadores que começaram cheios de ousadia e acabaram engolidos pela mesma falta de confiança que hoje parece contaminar o grupo?
É preciso personalidade para fazer aquilo que ele fez. E ontem, naquele momento, o miúdo mostrou que a tem.
Também é justo dizer que o Benfica fez um jogo digno. Talvez pela primeira vez esta época senti um Benfica que realmente quis ganhar. E quando duas equipas entram assim em campo, quem paga bilhete acaba por ver um espetáculo melhor.
Mas no fim, o que fica é outra sensação.
A de que o maior adversário do FC Porto, neste momento, não está em Lisboa… está dentro da própria equipa.
BOF_Abraços
Ricardo Amorim