Discute-se ninharias. A memória tem os dias contados, é (também) uma experiência subjectiva, em parte uma projecção da própria identidade, à qual o indivíduo atribui um significado, não obstante a existência de processos colectivos. Nem é certo que resista ao tempo ou à sucessão das gerações. Um adeptos do Manchester não se recorda da caminhada do Atlético mas o apoiante do Atlético recordará o percurso da equipa até ao último dia da sua vida. Podemos perguntar a um rapaz com 14, 15 pela laranja mecânica do Cruyff e tal, que grande equipa, e no entanto o miúdo nunca os viu mais gordos, não guarda qualquer memória dessa Holanda. Dentro de algum anos, poucos portugueses terão visto Eusébio jogar. Quando se ouvir que foi um grande jogador, provavelmente responder-se-á que sim, sem grande convicção. Então e recordam-se daquelas exibições... não, ninguém se recordará. A importância de alcançar um estatuto memorável é discutível. Tal como o próprio estatuto.
A vitória da selecção grega não será apagada dos registos (as proezas de equipas e jogadores também não), quando alguém for consultar a lista de vencedores de grandes competições, se no futuro pretenderem contabilizar os títulos de cada nação, a Grécia estará lá - e o povo grego fará questão de sublinhar que a Grécia foi campeã europeia. Pessoalmente preferiria que alguém desse com o nome de Portugal numa dessas consultas do que se discutisse os tempos do Figo e companhia. Até porque poucos discutirão. Ganhar é ganhar.
As probabilidades de vencer são poucas jogando desta forma? Enfim, sim, talvez. As probabilidades de vencer o europeu, um europeu, qualquer europeu, sempre foram poucas, menores que as de outros países. Era improvável vencer aquando do apuramento. É improvável neste momento. Mas as probabilidades aumentaram. E Portugal não tem qualquer responsabilidade de vencer uma grande competição, sempre nos batemos com selecções superiores. As pessoas que festejem à vontade, que buzinem, gritem... é compreensível, somos um país periférico a nível europeu, sem capacidade para grandes investimentos no desporto, mas que compete, ainda assim, com os melhores. O que Portugal faz no futebol é extraordinário. Estamos nas meias-finais, aconteça o que acontecer, o objectivo para este euro já foi mais do que alcançado.
Continua a não ser fácil para a nossa selecção, continuará também a não ser fácil para quem nos defronta. Assim sendo, tudo é possível.