Estórias da nossa história

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hast

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Como detentor de Lugar anual recebo todos os meses a «Revista dos Dragões», e, confesso, algumas vezes dou uma vista de olhos mais por alto e arrumo-as, para mais tarde ler mais pormenorizadamente. Foi assim que encontrei «pérolas» como esta. Não sei se ao postar estas preciosidades, estarei a cometer qualquer infracção, se assim for, o nosso administrador tem todo o direito de fazer o que muito bem entender.
Ora aqui vai:


Carlos Nunes
O primeiro «poker» num clássico.
Época: 1935/36
Data: 22 de Março de 1936
Local: Campo do Amial
Intervenientes: FC Porto e Sporting CP
Recordar este jogo vale a pena. Pelo resultado (a maior goleada da história dos confrontos entre Dragões e Leões), pelo feito de um atleta (Carlos Nunes), pelas curiosidades à volta de alguns intervenientes (atletas e treinadores).
Comecemos pelo resultado. Jogava-se a 1ª jornada da segunda volta do Campeonato da 1ª Liga. O Sporting (comandante da prova, juntamente com o Benfica) vencera na 1ª jornada, no Campo Grande, o FC Porto por magros 3-2. Agora visitava o detentor do título (FC Porto) disposto a «matar o borrego» - cinco jogos sem vencer os Azuis e Brancos no seu reduto (3 derrotas e 2 empates), o que vale por dizer que como visitante nunca vencera o anfitrião.
Não só não o conseguiria, como regressaria à capital vergado ao peso de uma memorável goleada! Nada mais, nada menos do que 10-1.
Para o engordar do «score» muito contribuiu o facto de, naquela altura, não serem permitidas substituições. É que cedo (à passagem da meia hora de jogo) o Sporting – já a perder por 2-1 – ficaria sem o seu guarda-redes Dyson. Um pontapé fulminante de António Santos levou a bola a acertar em cheio na cabeça do «keeper» (era assim que se dizia na altura) leonino, deixando Dyson por terra. Sem sentidos, não mais se recomporia, recolhendo aos balneários. Para a baliza foi um avançado, Rui Carneiro, incapaz de travar o ataque comandado por Pinga. Resultado: em nove minutos Lopes Carneiro, Valdemar Mota, António Santos e Carlos Pereira fizeram quatro golos e, com 6-1, chegou o intervalo.
A segunda parte renderia menos dois golos, mas traria para a história azul e Branca um feito que permanecerá «ad-eternum» no livro «Livro de recordes» do futebol português – pela 1ª vez, num clássico, um atleta conseguia colocar a sua assinatura no que em gíria futebolística se chama um «poker» (quatro golos).
E quem o assinou? Um atleta «nascido» nos infantis e diplomado na universidade da Constituição, de seu nome Carlos Nunes, ou, por respeito ao seu Bilhete de Identidade, Carlos Ferreira da Silva.
Com Pinga a abrir e a fechar a contagem, Carlos Nunes faria o 2-0 (17m), o 7-1 (65m), 8-1 (70m) e 9-1 (85m) – 4 golos – proeza que só 35 anos depois (em Janeiro de 1971) outro jogador do FC Porto conseguiria igualar, ao marcar 4 golos ao Benfica – Lemos.
Director do FC Porto após ter abandonado o futebol, Carlos Nunes, extremo esquerdo no convencional alinhamento das equipas – era o nº 11 - «fechou» a sua carreira internacional de três no Portugal-Alemanha, que a 27de Fevereiro de 1936 se disputou em Lisboa, e que os alemães venceriam por 3-1.
Na contabilidade oficial foi o 35ºda Selecção das quinas e o primeiro entre os dois países. Faltam as curiosidades. Na defesa Azul e Branca alinhava Carlos Alves, o verdadeiro homem das «luvas pretas», avô de João Alves, que nessa época, já com 33 anos e vítima de doença grave pulmonar, daria por encerrada a sua carreira. Uma época apenas , mas, de qualquer modo, tempo suficiente para o seu nome ficar associado a um feito relevante da história Portisata.
Recuperado, começou a sua carreira de treinador no Farense (a equipa era conhecida como o «oitavo exército») e finalizou-a na sua terra natal, Albergaria-a-Velha, treinando o Alba.
Na outra defesa, a do Sporting, jogava Vianinha, atleta que na época seguinte se transferiria para o FC Porto, por 21 contos. Se, pelo Sporting, tinha «encaixado» dez golos contra o FC Porto, pela sua nova equipa, um ano depois (04-04-1937), «encaixaria mais nove, em jogo – coincidência das coincidências – apitado pelo mesmo árbitro da anterior goleada – Henrique Rosa, de Setúbal.
A terceira curiosidade envolve os treinadores. O FC Porto, que um mês antes dispensara Joseph Szabo, viu o seu novo treinador, também ele húngaro, Magyar, ter uma entrada de Dragão no seu primeiro clássico. O treinador do Sporting, esse, era o mesmíssimo Joseph Szabo que o FC Porto havia despedido.
Magyar não aqueceu o lugarmais do que uma época (substituiu-o seu compatriota François Gutkas). Joseph Szabo voltaria ao FC Porto em 1945 – ficaria até 1947, altura em que o FC Porto a ser orientado por Alejandro Scopelli.
Para a fotografia ficar completa falta eternizar o onze Azul e Branco neste clássico:
Soares dos Reis, Carlos Alves, Avelino Martins, João da Nova, Carlos Pereira, anjos, Lopes Carneiro, Valdemar Mota, António Santos, Pinga e Carlos Nunes.
In «Revista dos Dragões» Julho de 2007
 
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hast

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Inauguração do Campo da Constituição.

Da incerteza da data…à bengala do comandante Charles Turner.

Alguém será capaz de nos dizer, com «certeza – certezinha», o dia em que foi inaugurado o velhinho campo da Constituição, relíquia e ex–libris do nosso Clube, bem no coração da rua que lhe deu o nome?
Nós… não somos! De pesquisa em pesquisa até à conclusão final, mergulhámos num mar de dúvidas. A fazer fé na velha «História do FC Porto» de Rodrigues Teles, terá sido a 1 de Janeiro, com a realização de um jogo entre os ingleses do Oporto Cricket Lawn-Tennis e o FC Porto.
Folheando a «Fotobiografia» de Rui Guedes, constata-se que nada de relevante aconteceu no primeiro dia do ano de 1913, mas sim, no dia seguinte, 2 de Janeiro, com a realização do dito cujo jogo com os «crickttista – tennista».
Se a fonte de consulta for o livro «FC Porto – 100 anos de História», de Manuel Dias e Álvaro Magalhães, ficamos a saber que o Campo da Constituição foi alugado por 350escudos anuais, confirmamos que no jogo inaugural o resultado foi de 5 – 2, a favor dos ingleses (todos eles residentes na cidade, acrescentamos), mas nada se adianta quanto à inauguração – 1 ou 2 de 1913.
Já no «Livro de Ouro do FC Porto», publicação do Diário de Notícias com texto da autoria de Alfredo Mendes, se dá à estampa uma versão mais radical: a inauguração do Campo da Constituição foi a 26 de Janeiro de 1913 com o «Torneio Internacional Taça FC Porto» (o primeiro realizado em Portugal), o qual contou com a participação do FC Porto, do Oporto Crickett, do Benfica e do Real Vigo (campeão da Galiza). Nada de resultados. Apenas uma nota curta a dar conta de que, «vergado pelos britânicos, o anfitrião fora afastado da prova.
Dando de barato que houve um jogo a 2 de Janeiro de 1913 – como houve – que o adversário foi esse onze inglesado do Oporto Crickett – como parece ser consensual – não ficará mal que, respigando reportagens de então – transcritas no volume IX da «História do FC Porto» de Rodrigues Teles, deixemos algumas pinceladas, com a chancela original, do que foram as actuações de diversos intervenientes Azuis e Brancos no jogo, aqueles que nos primórdios eram Keeper, os backs,os halfs e os forwards.
Mãos à obra, pois. Não restam dúvidas quanto ao marcador do primeiro golo no Campo da Constituição – equipava de Azul e Branco, chamava-se Webber e era um atacante (forward) que devia gostar do que na gíria se diz «levar a bola para casa», a avaliar pela apreciação do seu trabalho: «Fez muitas coisas de bom, mas muitas podia fazer se perdesse a mania de conservar a bola e querer levá-la sozinho ao campo do adversário».
Camilo Moniz jogou «com um pouco mais de energia que o seu costume» e John Jones «pouco fez porque, para além de andar bem marcado mostrava jogar sem vontade», Nota negativa, também, para Megre. Hoje dir-se-ia que passou ao lado do jogo, porquanto salvo o que «tentou fazer a princípio, nada mais se lhe aproveitou do jogo». Harrison, esse «foi o melhor embora (como era diferente o futebol naquele tempo) viesse demais à defesa».
Resumindo: «o ataque jogou sempre mal e sem combinação». Nota zero para os forwards. Melhor esteve a defesa, escreveu-se. Parece que de errado só havia a notar essa coisa sem importância de «abandonarem o seu goal, o que de resto deu origem a vários pontos marcados pelo adversário». De resto «só se admite que um back avance – e ainda assim nunca para além do meio-campo – quando sabe recuar a tempo». Positivamente, não era esse o caso do Magalhães Basto, responsabilizado pelos três últimos golos Crickett, já que o jogador abandonava sistematicamente o seu lugar».
Quem «jogou muito bem» foi Maçâs, embora tudo leve a crer que o passe preciso não era o seu forte. Aconselhava-se a que passasse «com mais cuidado, pois vê, muitas vezes, perdido o seu enérgico trabalho devido à precipitação de passagem».
Á altura e sem reparos parecem ter estado Allwood e Camilo Figueiredo. O primeiro «foi o jogador enérgico e incansável de sempre». O português terá sido a figura do jogo e o pronto-socorro da defesa, já que «salvou algumas vezes a sua baliza em perigo com a sua extraordinária corrida». Fraquinho esteve o guarda-redes Valença. Não admira. Estava doente e sem treino. «Sentiu-se bastante da doença de que ainda está convalescente e de falta de treino».
Como nota final, uma dica para os coleccionadores de curiosidades: «o apuro do jogo reverteu a favor dos náufragos do Veronese (vapor naufragado junto aos rochedos da Boa Nova)» e «cuja bengala do comandante Charles Turner ainda se encontra (e pensamos que ainda lá permaneça) no Museu dos Bombeiros Voluntários Matosinhos – Leça.
In «Revista dos Dragões» Setembro de 2007
 
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hast

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CORREIA DIAS

Um ponta-de-lança gigante

Nunca foi internacional. Tão pouco teve direito a qualquer faixa de campeão. A conquista da Taça de Portugal também não faz parte do seu palmarés, apesar de contabilizar mais golos (9) do que jogos (8). Foi, sim, sempre um notável goleador com lugar cativo na história do Dragão.
Estreou-se na equipa principal a 25 de Janeiro de 1942, com 23 anos, no campo da Constituição, frente ao V. Guimarães – ainda o FC Porto usava camisolas com cordões na gola e emblema só na de guarda-redes – na 2ª jornada do campeonato nacional de 1941/42, ao lado de Bela Andrasick (guarda-redes da selecção checa, transferido na época anterior do Zidenice de Brno e que um belo dia de 1943 se escapuliu, inopinadamente do Porto, talvez por lhe ter chegado aos ouvidos que a Gestapo descobrira que era espião anti-nazi e já o denunciara a Salazar), Sarrea, Vítor Guilhar, Poças, António Nunes, Povoas, Pratas, Pinga e Carlos Nunes.
Ponta-de-lança, alto, forte, corpulento (a balança nunca atestou menos de 100 quilos), Correia Dias, era no sentido exacto do termo, um verdadeiro brutamontes, um «predador» das áreas sempre à espera de apanhar uma bola a jeito e à medida do seu disparo forte e certeiro.
Foi assim, desfeiteando o keeper António Machado, que logo nesse jogo de estreia contribuiu com dois golos para a sofrida vitória por 3-2 frente aos vimaranenses (ambos a restabelecerem a igualdade) e foi assim, também, que ao longo das outras vinte jornadas consecutivas apôs a sua assinatura em trinta e quatro golos, tornando-se no rei do golo do campeonato a boa distância de Peyroteo (Sporting) e Armando Correia (Académica) ambos com vinte e oito remates na mouche.
A sua carreira não foi longa. Pensou em retirar-se no final de 1946/47, após seis épocas vestido de Azul e Branco sempre sem sucessos colectivos. Saído da euforia de dois títulos consecutivos (1938/39 e 1939/40), O FC Porto foi-se afundando, ano após ano, cumprindo uma década de absoluta abstinência de títulos e de modestas classificações.
Se, em 1940/41, aproveitando a embalagem do bicampeonato, o FC Porto ainda se conseguiu posicionar no segundo, a partir daí de nada serviram as dezenas de golos marcados por Correia Dias – 91 em 108 jogos – já que as classificações oscilavam entre o terceiro conseguido em 1946/47, o quarto em 1941/42, 1943/44 e 1944/45, o sexto em 1945/46 e o sétimo em 1942/43.
Urgia, pois, reconquistar o prestígio e contratou-se um novo treinador. Era argentino e chamava-se Eládio Vascheto. Não existindo no plantel um avançado-centro com selo de garantia a solução era, segundo o técnico, fazer Correia Dias mudar de ideias e trazê-lo de volta.
A Direcção aceitou e Correia Dias, muito pressionado, também. Só que com uma condição: como não tinha necessidades financeiras (era sócio da firma armazenista Correia Dias e Filhos, em Ovar, cidade onde nascera a 24 de Março de 1919, não aceitava receber qualquer salário já que sempre jogou por amor à camisola). A Direcção agradeceu mas não concordou. Para jogar teria de receber. Na equipa já todos tinham um salário, pelo que não poderia ser excepção. A Correia Dias não restava saída – ou respondia ao apelo que lhe era feito e passava a ser jogador remunerado ou, de borla nada feito.
O prazer de jogar pelo FC Porto falou mais alto. Aceitou. A explicação deu-a numa entrevista conduzida por Rodrigues Teles e publicada na revista Stadium, a 11de Fevereiro de 1948. Explica-se, assim, Correia Dias: «Eu acho o profissionalismo perfeitamente aceitável. É mesmo honroso ser profissional. Se eu precisasse do futebol acredito que receberia desde há muito. Mas, como isso não se tem dado, nunca pensei nas remunerações do clube. Agora posto o problema da disciplina e das obrigações, considerada necessária a minha inclusão na equipa do clube, nestas condições, acedi e ganho. Pronto.»
Esta força da natureza pesava, então, 113 quilos. Nada, porém, que assustasse o treinador. Graças a um treino rigoroso e uma dieta à «maneira» Correia Dias perdeu sete quilos.
Jogaria ainda mais uma época e «uns pós» de outra, a tempo de ver o seu nome ligado a um feito inesquecível do seu clube – a vitória por 3-2 sobre o Arsenal de Londres no Estádio do Lima, a 7 de Janeiro de 1948, e para o qual contribuiria com um par de golos (o outro foi para a conta de Araújo).
Manuel Belo Correia Dias, sem aviso prévio, fez o seu último jogo de alta competição a 16 de Janeiro de 1949, finda a decima sétima jornada do Campeonato Nacional de 1948/49. O adversário era outro (Olhanense), dos seus «padrinhos de baptismo» nem um só sobrevivente. O palco, esse era o mesmo em que há sete anos se estreava – o velhinho campo da Constituição.
Nessa tarde o pelado recebeu outros nomes: Barrigana, Francisco, Carvalho, Joaquim, Alfredo, Romão, Vital, Silva, Sanfins e Lino. Correia Dias terminava como começara – a ganhar. FC Porto venceu por 2-0 e Correia Dias marcou, a Abraão, o último golo da sua carreira – o centésimo decimo golo em 114 jogos para os nacionais, à média de quase um golo por jogo (0,96)!
Um feito verdadeiramente notável e pouco referenciado. Uma média que até hoje só quatro outros grandes goleadores portugueses, centenários, conseguiram superar nos campeonatos nacionais: Fernando Peyroteo: 183 jogos/297 golos (1,62), José Águas: 281 jogos/290 golos (1,03), Eusébio: 313 jogos/320 golos (1,02), e Julinho: 164 jogos/165 golos (1,01).
In «Revista dos Dragões» Agosto de 2007
 

Devenish

Tribuna Presidencial
11 Outubro 2006
15,844
881
Conquistas
1
Porto
  • Março/19
Uma curiosidade interessante é esta;

1º EMBLEMA DO F.C.PORTO.
INICIALMENTE É UMA BOLA DE METAL BRANCO E,MAIS TARDE,SERÁ TODA AZUL COM LINHAS BRANCAS\"

Isto até à mudança nos anos 20 para o símbolo actual.
Há uma história curiosa a este respeito, que penso ser só eu a saber dado o meu \"know how\" deste tema, que não foi dissecada na busca do falecido Rui Guedes por desconhecimento do facto. Breve abrirei um tópico em \"Curiosidades outros clubes\" e falarei deste assunto que acho que comprovará a existência do FCP de 1893 com logotipo próprio já nessa época. O tópico irá para esse lugar porque também falarei de outros clubes, da sua génese e evolução dos emblemas.
Mas fica uma dica que desenvolverei no tal tópico;
O 1º emblema do FCP era igual a todos do século XIX usados por clubes ingleses, italianos e doutras paragens, a única coisa que os diferenciava eram as cores e os nomes.
 
H

hast

Guest
As origens do Emblema do FC Porto.

O emblema original do Futebol Clube do Porto era: uma bola de futebol antiga azul com as letras FCP a branco. Assim continuou até 1922, quando Augusto Baptista Ferreira, jogador do FC Porto, num rasgo de criatividade daqueles só concedidos aos génios, resolveu unir o símbolo do FC Porto ao brasão da cidade do Porto na altura (que em 1940 foi alterado, passando a ser aquele que conhecemos actualmente). Simplício, como era conhecido, criou assim um emblema magnífico e bem representativo da simbiose entre o clube e a cidade. E fê-lo espontaneamente. O seu amor e a sua dedicação ao clube, bem como a sua genialidade, ficaram eternizados naquele que será, provavelmente, um dos poucos símbolos de clubes desenhados por um atleta.
O emblema do Futebol Clube do Porto passou então a ser: sobre a bola de futebol antiga azul estão as armas que D. Maria II atribuiu ao Porto por Carta Régia em Janeiro de 1837. Estão são compostas por um escudo esquartejado que possui as armas reais (sete castelos e cinco quinas, tendo cada uma cinco besantes no interior) no primeiro e quarto quartéis e as antigas armas da cidade do Porto (a Virgem segurando o Menino, ladeados por duas torres) no segundo e terceiro quartéis, tendo no centro, sobre o ponto onde se unem os quatro quartéis, um coração, que representa o precioso legado que D. Pedro IV (pai de D. Maria II) deixou à cidade - segundo a sua vontade, o seu coração encontra-se guardado numa urna de prata na Igreja da Lapa. A orlar o escudo encontra-se o Colar e Grã-Cruz da Antiga e Muito Nobre Ordem da Torre e Espada de Valor Lealdade e Mérito, do qual pende a respectiva medalha (na qual estão escritas essas mesmas palavras: valor, lealdade e mérito). Sobre o escudo está a Coroa Ducal e o Dragão negro do poder, pertencente às antigas armas dos Senhores Reis destes Reinos, em cujo pescoço está uma fita com a palavra Invicta, título que D. Maria II atribuiu ao Porto, acrescentando-o aos que a cidade já possuía - Antiga, Mui Nobre e Sempre Leal.
 

Devenish

Tribuna Presidencial
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  • Março/19
> hast Comentou:

> As origens do Emblema do FC Porto.

O emblema original do Futebol Clube do Porto era: uma bola de futebol antiga azul com as letras FCP a branco.

falta-te o anterior que está no meu post.
 

fcporto56

Tribuna Presidencial
26 Julho 2006
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Sacramento
> hast Comentou:

> CORREIA DIAS

Um ponta-de-lança gigante

Nunca foi internacional. Tão pouco teve direito a qualquer faixa de campeão. A conquista da Taça de Portugal também não faz parte do seu palmarés, apesar de contabilizar mais golos (9) do que jogos (8). Foi, sim, sempre um notável goleador com lugar cativo na história do Dragão.
Estreou-se na equipa principal a 25 de Janeiro de 1942, com 23 anos, no campo da Constituição, frente ao V. Guimarães – ainda o FC Porto usava camisolas com cordões na gola e emblema só na de guarda-redes – na 2ª jornada do campeonato nacional de 1941/42, ao lado de Bela Andrasick (guarda-redes da selecção checa, transferido na época anterior do Zidenice de Brno e que um belo dia de 1943 se escapuliu, inopinadamente do Porto, talvez por lhe ter chegado aos ouvidos que a Gestapo descobrira que era espião anti-nazi e já o denunciara a Salazar), Sarrea, Vítor Guilhar, Poças, António Nunes, Povoas, Pratas, Pinga e Carlos Nunes.
Ponta-de-lança, alto, forte, corpulento (a balança nunca atestou menos de 100 quilos), Correia Dias, era no sentido exacto do termo, um verdadeiro brutamontes, um «predador» das áreas sempre à espera de apanhar uma bola a jeito e à medida do seu disparo forte e certeiro.
Foi assim, desfeiteando o keeper António Machado, que logo nesse jogo de estreia contribuiu com dois golos para a sofrida vitória por 3-2 frente aos vimaranenses (ambos a restabelecerem a igualdade) e foi assim, também, que ao longo das outras vinte jornadas consecutivas apôs a sua assinatura em trinta e quatro golos, tornando-se no rei do golo do campeonato a boa distância de Peyroteo (Sporting) e Armando Correia (Académica) ambos com vinte e oito remates na mouche.
A sua carreira não foi longa. Pensou em retirar-se no final de 1946/47, após seis épocas vestido de Azul e Branco sempre sem sucessos colectivos. Saído da euforia de dois títulos consecutivos (1938/39 e 1939/40), O FC Porto foi-se afundando, ano após ano, cumprindo uma década de absoluta abstinência de títulos e de modestas classificações.
Se, em 1940/41, aproveitando a embalagem do bicampeonato, o FC Porto ainda se conseguiu posicionar no segundo, a partir daí de nada serviram as dezenas de golos marcados por Correia Dias – 91 em 108 jogos – já que as classificações oscilavam entre o terceiro conseguido em 1946/47, o quarto em 1941/42, 1943/44 e 1944/45, o sexto em 1945/46 e o sétimo em 1942/43.
Urgia, pois, reconquistar o prestígio e contratou-se um novo treinador. Era argentino e chamava-se Eládio Vascheto. Não existindo no plantel um avançado-centro com selo de garantia a solução era, segundo o técnico, fazer Correia Dias mudar de ideias e trazê-lo de volta.
A Direcção aceitou e Correia Dias, muito pressionado, também. Só que com uma condição: como não tinha necessidades financeiras (era sócio da firma armazenista Correia Dias e Filhos, em Ovar, cidade onde nascera a 24 de Março de 1919, não aceitava receber qualquer salário já que sempre jogou por amor à camisola). A Direcção agradeceu mas não concordou. Para jogar teria de receber. Na equipa já todos tinham um salário, pelo que não poderia ser excepção. A Correia Dias não restava saída – ou respondia ao apelo que lhe era feito e passava a ser jogador remunerado ou, de borla nada feito.
O prazer de jogar pelo FC Porto falou mais alto. Aceitou. A explicação deu-a numa entrevista conduzida por Rodrigues Teles e publicada na revista Stadium, a 11de Fevereiro de 1948. Explica-se, assim, Correia Dias: «Eu acho o profissionalismo perfeitamente aceitável. É mesmo honroso ser profissional. Se eu precisasse do futebol acredito que receberia desde há muito. Mas, como isso não se tem dado, nunca pensei nas remunerações do clube. Agora posto o problema da disciplina e das obrigações, considerada necessária a minha inclusão na equipa do clube, nestas condições, acedi e ganho. Pronto.»
Esta força da natureza pesava, então, 113 quilos. Nada, porém, que assustasse o treinador. Graças a um treino rigoroso e uma dieta à «maneira» Correia Dias perdeu sete quilos.
Jogaria ainda mais uma época e «uns pós» de outra, a tempo de ver o seu nome ligado a um feito inesquecível do seu clube – a vitória por 3-2 sobre o Arsenal de Londres no Estádio do Lima, a 7 de Janeiro de 1948, e para o qual contribuiria com um par de golos (o outro foi para a conta de Araújo).
Manuel Belo Correia Dias, sem aviso prévio, fez o seu último jogo de alta competição a 16 de Janeiro de 1949, finda a decima sétima jornada do Campeonato Nacional de 1948/49. O adversário era outro (Olhanense), dos seus «padrinhos de baptismo» nem um só sobrevivente. O palco, esse era o mesmo em que há sete anos se estreava – o velhinho campo da Constituição.
Nessa tarde o pelado recebeu outros nomes: Barrigana, Francisco, Carvalho, Joaquim, Alfredo, Romão, Vital, Silva, Sanfins e Lino. Correia Dias terminava como começara – a ganhar. FC Porto venceu por 2-0 e Correia Dias marcou, a Abraão, o último golo da sua carreira – o centésimo decimo golo em 114 jogos para os nacionais, à média de quase um golo por jogo (0,96)!
Um feito verdadeiramente notável e pouco referenciado. Uma média que até hoje só quatro outros grandes goleadores portugueses, centenários, conseguiram superar nos campeonatos nacionais: Fernando Peyroteo: 183 jogos/297 golos (1,62), José Águas: 281 jogos/290 golos (1,03), Eusébio: 313 jogos/320 golos (1,02), e Julinho: 164 jogos/165 golos (1,01).
In «Revista dos Dragões» Agosto de 2007

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E sempre bom reviver o passado.Ja agora alguem sabe porque e que o FCPorto desceu tanto na decada de 40?
 

Ferjo

Tribuna
18 Julho 2006
4,839
0
Perth Australia
Um avancado com mais de 100 Kg, era de facto impressionante! Alguem sabe a altura exacta dele? No artigo refere alto, forte, corpulento.

E gostei muito da passagem, ou tens salario ou nao jogas! E ele a muito custo aceitou! Outros tempos... :-D
 
H

hast

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> Ferjo comentou:

>Um avancado com mais de 100 Kg, era de facto impressionante! Alguem sabe a altura exacta dele? No artigo refere alto, forte, corpulento.

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Caro Ferjo, deveria ser alguém parecido com o Hugo Almeida, só que mais corpulento, digo eu. ;-)
Saudações.
 
H

hast

Guest
Nicolau de Almeida e o Foot Ball

Não há margem para dúvidas: o Foot Ball Club do Porto foi fundado em 28 de Setembro de 1893. Por um negociante de vinhos, fascinado por modernidades

Camilo, azedo e doente, riu muitas vezes do Porto, que amava em estranho sentimento para não chorar de si próprio. Os seus romances são retratos vivos de uma cidade marcada pelos mercadores tripeiros, que surgiam de dentro das lojas com o seu côvado, as suas tamancas, a sua carapuça, o seu capote de grelos. Essa face que Eça também lhe descobriu, sem contudo lhe negar o que Camilo lhe negou: «O bom portuense, se quiser ter foros de cidadão, terá de provar que o bisavô veio para a cidade com uma broa e meio presunto no saco, escarranchado sobre dois costais de castanholas; que o avô teve balcão de fazendas brancas e foi irmão do Santíssimo, irmão benemérito da Misericórdia e vinte anos a fio vestiu balandrau para pegar ao andor de Nossa Senhora. Item, que o pai era, sem vergonha do Mundo, negociante de quatro portas, afora os postigos por onde passava o contrabando; que sua mãe fora gorda e boa mulher, que remendava, passajava e sabia mesmo deitar uns fundilhos nas calças do marçano e nunca na vida tivera pacta com letra redonda.»
Era esse Porto — que não deixava também de ser uma imagem, afinal, de Portugal inteiro — que, no último quartel do século XIX, jovens no ardor do modernismo pretenderam apagar. Porto que Eça ainda descrevera como «seca e escura cidade, rude e plebeia, de ruas estreitas e agitadas, impertinente e cheia de oposição, comendo alegremente arroz e bacalhau, dançando nos bailes improvisados onde as mulheres iam com o pobre vestido de chita da Rua da Flores, e de onde os homens saíam, cansados da gavota, para o fogo das linhas — o Porto, ainda com feições de burgo antigo, com as suas dinastias de comerciantes honrados, os seus tamancos estóicos, impassível diante dos redutos, sensível diante dos melodramas do teatro nacional, patriota, resmungão e rezando ao Senhor de Matosinhos!»

Sport, chique e moderno

E se havia, entre os portuenses, quem quisesse criar uma outra cidade, mais larga de espírito e de riqueza, mas ainda assim anafada de provincianismo pelintra, mais brasileira (no sentido ridículo dos brasileiros de Eça), mais sonolenta, cheia de poetas líricos e ávida de baronatos, havia também quem ousasse desportizá-la, no sentido do que isso tinha de chique e de moderno, libertando-a da doença do tédio.
Nas páginas, já puídas pela usura dos anos, de uma das primeiras edições da revista «Caça & Sport» pode ler-se, em entrevista de Amadeu Muaze a Eduardo Almeida Coquet: «Já em 1891 e 1892 um grupo de rapazes, entre os quais António Nicolau d´Almeida, Fernando Nicolau d´Almeida, Vieira da Cruz, Lacy Rumsey, Artur Rumsey e George Dagge, vinha trabalhando afincadamente a favor da velocipedia. No primeiro ano, sob o nome de Clube Excursionista, e, seguidamente, em 1892, sob nova designação de Clube de Velocipedistas do Porto, tentam levar a efeito passeios e excursões em bicicleta, algumas corridas, fazendo uma boa propaganda à custa do seu enorme entusiasmo. Àqueles vêm juntar-se outros. Eduardo Rumsey, António Leite de Faria, António Tasso de Sousa, Benedito Ferreirinha, Carlos Rothes, Guilherme Anderssen, Pedro Amorim Júnior, Caetano Marques Rodrigues, Carlos Chambers e Jorge Nunes de Matos, completam o grupo dos apaixonados do pedal. O entusiasmo cresce, e, finalmente, o Velo Clube, pela junção de 44 sócios, ao Clube de Velocipedistas do Porto, passa a usar a designação de Real Velo Clube do Porto, que tinha as suas instalações no Palácio de Cristal. Durante o segundo semestre de 1893 entram muitos sócios, entre os quais figura Sua Alteza o Senhor Infante D. Afonso e, em fins do mesmo ano, Sua Majestade El-Rei concede a quinta do seu palácio da Rua do Triunfo para construção do velódromo, mostrando bem assim o grande interesse que as coisas de sport lhe mereciam.»
António Nicolau de Almeida! Com seu pai era sócio de uma empresa exportadora de vinho do Porto. E assumido sports-man. Praticante do portuguesíssimo jogo do pau, do remo e da natação. Em 1893 tinha 20 anos. Pouco depois de se lançar na aventura da fundação do Real Velo Club partiu em viagem de negócios para Inglaterra. Por lá entreviu o fascínio do jogo da moda. O futebol. Consigo trouxe algumas bolas e o desejo de lançar no Porto (fora dos circuitos sempre fechados dos ingleses aí radicados) o jogo. Era aventura. Era chique. E assim, esfriando um pouco o ardor que pusera no Velo Clube, decidiu, com alguns dos seus amigos das corridas de bicicletas, fundar outro clube. O Foot Ball Club do Porto. Data escolhida: 28 de Setembro de 1893. Nesse dia (não por dispiciendo acaso) o Rei D. Carlos festejava o 30.º aniversário e a Rainha D. Amélia o 28.º
A notícia do evento foi publicada, em cima da hora, pelo «Diário Illustrado», periódico de Lisboa, nos seguintes termos: «Fundou-se, no Porto, um clube denominado Foot Ball Clube do Porto, o qual vem preencher a falta que havia no norte do país de uma associação para os jogadores daquela especialidade. No segundo domingo de Outubro inaugura-se o clube oficialmente, com um grande match entre os seus sócios, no hipódromo de Matosinhos. Ouvimos dizer que serão convidados alguns clubmen de Lisboa. Que o Foot Ball Club do Porto apure um grupo rijo de jogadores e que venha medir-se ao campo com os jogadores do Club Lisbonense, do Real Ginásio Club, do grupo de Carcavellos ou de Braço de Prata, para animar os desafios de football como já o são as corridas de cicles. Eis o que desejamos.»
E, de facto, no segundo domingo de Outubro realizou-se o «match». O «Jornal de Notícias» do Porto, de 8 de Outubro, anunciava em notícia de primeira página: «Realiza-se hoje, às duas horas da tarde, no antigo hipódromo um \'match\' de football, promovido pelo Foot Ball Club do Porto, tomando parte nesta diversão vinte e dois sócios do referido clube. Os dois partidos são \'capitaneados\' pelos srs. Nugent e Mackenie, distintos jogadores e sócios do referido clube. Tomam parte os senhores Fernando e António Nicolau de Almeida, Arthur, Lacy e Roberto Rumsey, Alfredo e Eduardo Kendall, Guilherme Anderson, Wlater Mac Connan, Barbosa, António Maria Machado, José Vale, Artur Ramos de Magalhães, Eduardo Sprakey, A. Johnston, Hans Peters, Jorge Hardy, Joaquim Duarte, Henrique Cunha e A. Vieira da Cruz, etc. Vêm assistir a este torneio as senhoras da colónia balnear da Foz. Este interessantíssimo jogo é uma novidade no Porto e há grande entusiasmo, tendo-se feito já algumas apostas
Oito dias depois, o «JN» inseriu, na sua segunda página, notícia dos treinos do F. C. Porto, acrescentando que, entre a assistência, para além das senhoras da colónia balnear da Foz, estavam, também, as de Leça e Matosinhos. Outras notícias se lançaram de dois jogos, um a 8 e outro a 15 de Outubro, contra o Clube de Aveiro, capitaneado por Mário Duarte.
 
H

hast

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A amável carta do repto a Lisboa
Nicolau de Almeida solicitou a presença do Lisbonense no Porto, mas pediu desculpas antecipadas por não poder apresentar um «eleven» capaz

O entusiasmo cresceu. E a 25 de Outubro de 1893, António Nicolau de Almeida, na assumida qualidade de presidente do Foot Ball Club do Porto, enviou ao presidente do Football Club Lisbonense uma carta que era um repto, mas pouco: «Desejando solenizar a definitiva instalação do Foot Ball Club do Porto resolvemos organizar um match quarta-feira próxima, 2 de Novembro, no qual tomasse parte um eleven do team do clube a que V. Exa. tão dignamente preside. Não temos, é certo, em virtude da pouca prática e nenhum training dos nossos jogadores um eleven de primeira ordem, capaz de fazer frente ao do Club Lisbonense. Como, no entanto, o n/convite não representa um repto lançado pelos n/jogadores aos jogadores de Lisboa, mas tão-somente o vivo desejo de estreitar relações de franca camaradagem, esperamos que V. Exas. nos revelarão a n/justificada imperícia. Cumpro, pois, na qualidade de presidente do Foot Ball Club do Porto, o honroso dever de convidar por intermédio de V. Exas. os valentes e adestrados jogadores do Club Lisbonense a tomarem parte no referido match. Na esperança de sermos honrados com a anuência ao n/pedido, aguardamos o favor de uma resposta rápida p.ª n/governo. Deus guarde V. Exas. Illmo. Exmo. Sr. Presidente do Football Clube Lisbonense.»
Anúncio dessa mesma carta seria estampado na página 3 do «Diário Illustrado», no dia 29 de Outubro de 1893. Foram linhas escritas por um primo de Guilherme Pinto Basto, presidente do Lisbonense, que, de tão bem informado, acrescentaria que, para a data proposta, não seria possível «reunir, escolher o grupo e dispor a partida em tão curto espaço de tempo», mas garantido ficava que o convite fora aceite.
 

Ferjo

Tribuna
18 Julho 2006
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Perth Australia
Mais uma perola, obrigado hast.

Tao amigos que no\'s eramos com os da capital! Eram definitivamente outros tempos!

E os resultados desses jogos, alguem sabe?
 

Ferjo

Tribuna
18 Julho 2006
4,839
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Perth Australia
> hast Comentou:

Caro Ferjo, deveria ser alguém parecido com o Hugo Almeida, só que mais corpulento, digo eu. ;-)
Saudações. >

Sobre o Hugo Almeida, encontrei uma entrevista dele na Net:

Devo tudo ao sr. Craveiro, do FC Porto. Viu-me a jogar pela Naval num jogo em que ganhámos 12-0 e marquei sete golos. Os meus colegas da selecção pediram-me o número de telefone para dar aos dirigentes do FC Porto. Nunca pensei que eles ligassem, mas ligaram. Entretanto, apareceu também o Sporting interessado depois de um jogo contra os leões, em que sa­i lesionado após lance com o Quaresma. Mesmo assim marquei o golo e queriam que assinasse. Tive os dois contratos \'a minha frente, mas preferi o FC Porto pelo modo como sempre me trataram. Iam a minha casa, falavam com os meus pais. Foram sempre mais cordiais. As pessoas do Sporting limitavam-se a dizer que cobriam qualquer oferta do FC Porto e só falavam por telefone. Fiz a escolha acertada porque ingressei num clube fascinante.
 
H

hast

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Honrada derrota para rei ver.

Foot Ball Clube do Porto e Football Club Lisbonense defrontaram-se em jeito de Porto-Lisboa. Para disputa de uma taça oferecida por D. Carlos.

Em Fevereiro de 1894, Guilherme Pinto Basto aceitou, enfim, o repto de António Nicolau de Almeida. Mas, visionário, tentou colocar a fasquia mais alta, convencendo o Rei D. Carlos a patrocinar o jogo entre as equipas de Lisboa e do Porto. Aquiesceu o rei, oferecendo para disputa uma taça com o seu próprio nome e exigindo apenas que o match fosse incluído no programa oficial das festas comemorativas do Centenário Henriquino, organizadas, no Porto, em homenagem à memória do Infante D. Henrique.
A 17 de Março, o «Diário Illustrado» publicou o regulamento da Taça D. Car-los I, que tinha como legenda «Football Championship das Cidades de Portugal». Seria disputada entre teams representativos das cidades de Portugal, e nos campos das cidades que a ganhassem pela última vez, sendo entregue à cidade que a ganhasse em três anos consecutivos.
Exigência real (em nome de um nacionalismo ameaçado por vários flancos) que «pelo menos, teriam de ser portugueses, devidamente comprovados, seis jogadores de cada team representativo» e que só poderiam «tomar parte nos desafios da Taça D. Carlos I os jogadores que pertencessem oficialmente a qualquer clube da cidade com três meses de antecedência».
Mais se preceituava: que no caso de empate, ter-se-ia de jogar novamente no mesmo ano, até que um team ficasse vencedor e que «a cidade detentora do precioso troféu só teria que o defender uma vez por ano, e apenas contra o team que tivesse sido vencedor das outras cidades».
A instituição e disputa da Taça D. Carlos I atingiu tal notoriedade entre a colónia inglesa da época que mereceu relato na «Ilustraded Sporting & Dramatic New», prestigiada revista de Londres, relato ilustrado com uma imagem da equipa do Football Club Lisbonense.

Mais um bocadinho a pedido da rainha

A 2 de Março de 1894 fez-se o jogo. No Campo Alegre, onde os ingleses do Porto jogavam, amiúde, o futebol. Os jogadores de Lisboa, «capitaneados» e seleccionados por Guilherme Pinto Basto, seguiram viagem de comboio para o Porto. À partida, uma despedida entusiástica. 14 horas durou a viagem. Pela noite dentro. Três horas após o desembarque, na Campanhã, o jogo, no campo pertencente ao Oporto Cricktet and Law-Tennis Club. Estava marcado para as três da tarde, mas começaria um quarto de hora depois.
Segundo as crónicas da época, para além de se exaltar o facto de o Rei D. Carlos, a Rainha D. Amélia e os príncipes assistirem ao jogo, afiançava-se que «o terreno do jogo, esplêndido para o cricket, não era dos melhores para a prática do futebol, por descair bastante defronte das balizas».
Pouca consideração tiveram D. Carlos, D. Amélia, D. Afonso e D. Manuel já que, segundo o «Diário Illustrado», «Suas Majestades chegaram ao fim da partida. A pedido de Sua Majestada a Rainha, jogou-se mais 10 minutos, sendo previamente estabelecido que não teriam influência no resultado do match que se tinha acabado de jogar».
Tarde chegaram e para boas-vindas nenhum toque nacionalista. Antes pelo contrário. Nas páginas de «O Sport», o primeiro jornal desportivo de Portugal, o registo da recepção, em tom que não permitia margem para dúvidas, vincando, inclusivamente, a falta de ambiente oficial para a propaganda do futebol e ainda o reflexo político bem quente do Ultimato na população do Porto, sobretudo depois da revolta dos republicanos de 31 de Janeiro: «Às 4 h e 13, Suas Majestades e Altezas, acompanhadas pela sua comitiva, entraram no Campo Alegre, sendo recebidos pelo cônsul e consulesa de Inglaterra, no meio dos mais entusiásticos hurras levantados pelas pessoas presentes. Continuando o jogo, 4 minutos depois de Suas Majestades e Altezas chegarem ao campo, os forwards de Lisboa marcaram um goal». Ironia muito mais subtil se encontraria nas páginas de «O Século», jornal já declaradamente simpatizante de ideais republicanos, que notou que «à entrada do campo, bem como à saída, as Majestades foram muito vitoriadas, principalmente por ingleses, pois quase todos os espectadores pertenciam à colónia inglesa».
O jornal, apesar de se fazer representar por Samuel Benoliel, então o mais afamado repórter fotográfico português, não deu grande amplitude à crónica do desafio, no que se poderá considerar mais um sinal de antipatia, desprezo ou desconfiança pública por tudo o que tivesse conotação ou raiz britânica. Como o futebol.

A última notícia e o letargo

Como resultado do jogo ficou a vitória dos lisboetas, por 1-0. Apesar de dois golos marcados. O primeiro fora apontado quando faltavam 14 minutos para o intervalo e insolitamente anulado. «A bola, marcado um pontapé de canto, bateu no braço de A. Nugentt, um dos defesas do Porto, entrando, de ricochete, nas redes do Norte. A equipa portuense contestou a validade do ponto, por motivo de ter havido mão antes, mão que não fora denunciada, ou que pelo menos o referee não julgou intencional. Eduardo Ferreira Pinto Basto considerou válido o goal, mas o jogo não recomeçou a meio do campo. Não contou pois. O único ponto regido, o segundo do encontro, foi marcado às 4 horas e 19 minutos.»
Não consta das crónicas o nome do marcador do golo. Sabe-se, apenas, que mereceu ser classificado de esplêndido e que para a sua marcação contribuíram Afonso e Carlos Vilar, Rankin e Paiva Raposo. Mas, segundo o «Diário Illustrado», parece que os postes das balizas não se encontravam à distância legal um do outro e que a trave não estava à devida altura. Sobre a equipa do Porto, um simpático comentário: «A equipa é de primeira ordem, distinguindo-se, todavia, Geock, que, quando na Escócia, era o seu primeiro guarda-redes.» Por especificar ficavam os nomes de outros jogadores porque o seu cronista, assumindo, humildemente, o pecadilho, aquiesceu não os «distinguir pelos nomes», apesar de saber e acentuar que um dos seus jogadores, «o mais novo dos Kendalls, tinha apenas 15 anos».
O «Sport», salientando igualmente a prestação de Geock, mas também a de Artur Dagge e Mac Millen, vaticinava: «Se o grupo de Lisboa que, para o ano de 1895, tiver de defender a taça, não se treinar e não tiver muito cuidado na escolha dos jogadores que dele devem fazer parte, decerto bem difícil lhes será poder vencer o match, pois que, à equipa que vimos jogar pelo Porto, a única coisa que lhe notámos foi a falta de treinos, que, no que, estamos certos, não descurarão de futuro, a fim de poderem ganhar a taça, para o ano.»
Oito dias depois, em correspondência do Porto para Lisboa, «O Sport» publicava a seguinte notícia: «Depois do match entre Lisboa e Porto nada tem havido de notável no futebol. Apenas no domingo, 11 de Março, alguns sócios do Foot Ball Club do Porto estiveram no campo do antigo hipódromo de Matosinhos, treinando-se durante duas horas.»
De facto, entre os jogadores que representaram o F. C. Porto, no jogo contra Lisboa, estavam alguns dos que se treinaram pela primeira vez em Matosinhos, como jogadores e fundadores do Foot Ball Club do Porto: A. Nugent, Alfredo Kendall, Eduardo Kendall, Mac Kechnie e F. H. Ponsonby. Ou seja, mais um sinal que prova que o Foot Ball Club do Porto existia e jogava. Foi, contudo, a última notícia publicada referindo-se de forma directa e inequívoca ao Foot Ball Club do Porto de António Nicolau de Almeida. O que pressupõe, desde logo, longo (de 12 anos) e misterioso letargo. Que só sinais dos tempos podem explicar…
 
H

hast

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Futebol, não que é perigoso!
Nicolau de Almeida casou-se e, a pedido da senhora, trocou o futebol pelo ténis. No coração ficou-lhe a mágoa de ter de deixar desactivado o seu FCP

Por essa altura Portugal era um país em crise. Política, económica, financeira. Com o império colonial ameaçado e o orgulho ferido pelo Ultimato inglês. Um profundo sentimento de decadência atravessara já a elite intelectual, discípula da famosa geração de 70, de Antero, Eça, Ramalho, Teófilo, Oliveira Martins. A geração de 90 busca, então, refúgio num nacionalismo estreito cujo denominador comum era a negação de tudo o que tresandasse a anglo-saxónico — como o football que, ironicamente, passou a denominar-se «jogo do coice». Mas ser moderno e ser republicano era também (e cada vez mais) ser contra a Monarquia, a Igreja Católica, os Jesuítas e a corrupção política dos partidos tradicionais de que Eça e Ramalho traçam geniais retratos em «As Farpas». Era o Porto o centro da contestação mais quente. E apesar de a revolta republicana de 31 de Janeiro de 1891 ter fracassado, o jogo republicano ardia em quase todos os corações, mesmo nos dos jovens de raiz mais aristocrática, mais burguesa. O futebol voltou a ser o que fora anos a fio: jogo em circuito fechado nos campos de diversão da colónia inglesa...
Em 1896, António Nicolau de Almeida casou-se com Hilda Rumsey, irmã de Arthur e Lacy Rumsey. A ela não lhe custara muito desviá-lo dos campos de futebol, precatando-o de que era «um jogo muito perigoso» — e mais do que isso, impopular — dedicando-se, assim, ao ténis, que era, certamente, mais nobre, mais chique.
Foi o bastante para que António Nicolau de Almeida, cuja amizade com Guilherme Pinto Basto se estreitara deveras, deixasse o Foot Ball Club do Porto em ponto morto, fazendo do ténis o seu ponto de contacto com a Corte de D. Carlos. E, seis anos após o primeiro jogo de futebol entre o Porto e Lisboa, resultado aliás de uma carta trocada entre si, continuaram a encontrar-se em actividades desportivas da high-society. Corte. Por exemplo, jornais da época referem que a 26 de Outubro de 1900, no aristocrático Sporting Clube de Cascais se disputou um torneio de ténis, patrocinado pelo Rei D. Carlos entre as equipas de Lisboa e do Porto, alinhando, pelos portuenses, para além de António Nicolau de Almeida, seu irmão Fernando, Laura e Beatriz Brito e Cunha, Miss Kendall, Miss Dagge, Turner, George Dagg, Miranda e Kendal; e, pelos lisboetas, para além do Rei D. Carlos e do Infante D. Afonso (que tinha a paixão e vertigem das velocidades, correndo de automóvel) e de Guilherme Ferreira Pinto Basto, Conceição e Teresa Guarda, Leonor Atalaya, Jesus Salema, António Mendia, Boaventura Mendes de Almeida, Pinto Coelho e Luís Pombal.
Ténis continuou a jogar. E, por via disso, deixou esmorecer o sonho que lançara ao fundar o Foot Ball Club do Porto. Que, assim, hibernou. Em 1906 seria refundado por José Monteiro da Costa. Amigo de António Nicolau de Almeida. Que se ligaria ao clube, acompanhando alguns dos seus amigos, que (obviamente não despicientemente) para além do nome lhe mantivera a cor das camisolas, azuis e brancas, como a bandeira da monarquia. Tudo isso corrobora a tese, lançada ini-cialmente por Rui Guedes, de que o F. C. Porto fora fundado em 1893. Ou não serão bastantes as provas e os indícios? E, como se não bastassem, que significa o facto de alguns dos jogadores do Foot Ball Club do Porto de António Nicolau de Almeida (ou Velo Clube do Porto, que era o alter ego do FCP), como Mac Kechie, Nujent, Kendall alinharem, imediatamente, no Foot Ball Club do Porto (re)fundado por José Monteiro da Costa, em 1906? Ou que, para além da escolha das mesmíssimas cores do equipamento, azuis e brancas, António Nicolau de Almeida surja numa fotografia de 1907 num dos treinos do F. C. Porto, na Rua da Rainha, ao lado do seu amigo Romualdo Torres, que foi um dos obreiros da refundação?
Foi com base na articulação de todos estes factos que, com alguma polémica, Pinto da Costa decidiu aprovar em Assembeia Geral a alteração da data da fundação do F. C. Porto de 2 de Agosto de 1906 para 28 de Setembro de 1893. Tudo porque, com base em documentos conhecidos (mas não valorizados e encaixados) através da própria (oficial e magnífica) «História do F. C. Porto», elaborada por Rodrigues Teles, Rui Guedes concluiu que «2 de Agosto de 1906 é uma data sem significado para o clube e que as comemorações anuais de aniversário» se faziam nesse dia «por erro acumulado que não condizia com o prestígio e a grandeza do FCP». Por isso, apesar de aquiescer que «é inegável a importância que José Monteiro da Costa teve no FCP», reconhecendo «que sem ele o clube não teria passado de uma experiência curiosa mas já esquecida», Guedes considerou injusto «não atribuir a António Nicolau de Almeida o correcto lugar de pioneiro e fundador do FCP, a elevação do clube à presença real e o incentivo e apoio posteriores a José Monteiro da Costa». E num golpe mascarado de marketing sentimental desafiou, na sua «Fotobiografia do F. C. Porto», o clube a assumir a «verdadeira data da sua verdadeira fundação» e a «honra e vaidade de ser, actualmente, o mais antigo de Portugal».
 
H

hast

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O destino do grupo...
José Monteiro da Costa andou por Inglaterra e apaixonou-se. Falou do objecto da paixão aos seus amigos do Grupo do Destino e o destino do grupo transformou-se.

Foot Ball Club do Porto houve. Incontestável. António Nicolau de Almeida lançou as sementes, mas acabou por deixá-las fenecer. Pelo que, entre 1894 e 1906, o Foot Ball Club do Porto não passou de um nome, do sonho de um homem que decidiu mudar de rota. Outro surgiu então para reaquecer a utopia: José Monteiro da Costa. Durante mais de oitenta anos foi tomado como fundador do F. C. Porto. No dia 2 de Agosto de 1906. Uma data sem justificação. E sem prova. Camilo Moniz, que fora um dos lugares-tenentes de Monteiro da Costa, desfiando memórias desse tempo de sonho recuperado e aquecido, num «Boletim do F. C. Porto» garantira que o clube se fundara «durante uma assembleia do Grupo do Destino, num domingo do mês de Agosto de 1906». Só que o dia 2 de Agosto de 1906 não era domingo — era quinta-feira...
Enfim, retalhos da história perdida de um grupo de jovens liberais, entrelaçados na ânsia republicana, foliões, que, um dia (re)fundaram um clube de futebol sem sequer imaginarem que estavam a criar um dos mais arrebatantes símbolos de glória de Portugal. Eram o Grupo do Destino. José Monteiro da Costa, o presidente, que engatilhou o projecto, ciente de que as utopias não pertencem nunca aos acanhados caminhos da vida ou aos sentimentos efémeros. Mais um pedaço de recordações de Camilo Moniz: «José Monteiro da Costa era presidente de um grupo composto por rapazes que procuravam gozar a vida o mais divertidamente possível. Cheios de alegria e bom humor, esses rapazes mantinham, entre si, uma tão estreita camaradagem e procuravam dar vida, originalidade e cor às suas brincadeiras, a que não faltava um bom almoço, jantar ou ceia. Ingressar no Grupo do Destino, que tinha como objectivo a folia e como divisa ‘um por todos e todos por um’, não era coisa fácil, porque a selecção era rigorosíssima e o seu número quase limitado. No entanto, quando era admitido algum novo sócio, realizava sempre o grupo uma festa em sua honra (festa de baptismo), onde eram postas em jogo as qualidades gastronómicas do novato e mal lhe ia se não desse provas de bem comer e beber. Chá e bolos eram coisas que a mocidade de então dispensava. Enfim... outros tempos, outra mocidade, outros costumes. Assim viveu alguns anos este simpático grupo, até que, um belo dia, José Monteiro da Costa partiu para uma viagem por Espanha, França e Inglaterra. Neste último país assistiu a vários jogos de futebol, cujas impressões descrevia com enorme entusiasmo nas cartas que enviava à rapaziada amiga. E tais desejos manifestava de no seu regresso o pôr em prática dentro do Grupo do Destino, que os de cá já se sentiam jogadores do desconhecido jogo. Sabida a sua chegada, foi quase todo o grupo esperá-lo à estação de Ermesinde, para o acompanhar até ao Porto. No trajecto, como homem de acção rápida, explicou resumidamente o que tinha visto e o que tencionava fazer, marcando logo uma reunião para se resolver a melhor forma de pôr em prática o seu projecto, que todos já aplaudiam sem reservas. Nessa reunião expôs com detalhe o que pensava fazer e depois de bem estudadas todas as dificuldades foi resolvido, sem a mais pequena discordância, jogar futebol.»